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razões de queixa
rosas
innersmile
Uma destas noites saí da piscina, comi qualquer coisa no shopping, passei no hipermercado para comprar areia para o gato e, quando entrei no carro para me vir embora, pensei que tinha o dia cumprido, que tinha realizado todas as coisas que era suposto ter feito nesse dia. Depois pensei que era muita falta de ambição, achar-se que se tinha o dia ganho porque se tinha passado o dia a trabalhar, nadado durante cinquenta minutos, comido uma fatia de piza, e comprado areia higiénica para o gato!

Caramba, a vida devia ser mais do que isso! Um tipo devia chegar ao fim do dia e pensar que tinha cumprido a sua missão quotidiana: subido à mais alta montanha, atravessado a nado um estreito em mar aberto, provado a mais exótica iguaria numa tenda perdida no meio do deserto, convivido com as feras nas profundezas inacessíveis de um parque natural de vida selvagem.

Depois pensei que se calhar a vida era isto mesmo, cumprir as desinteressantes tarefas do dia a dia. Se calhar não nascemos para realizar grandes feitos; temos de ir cumprindo o quotidiano, apenas porque nascemos. É essa a nossa missão na terra: chegar ao fim do dia sem deixar muitas coisas adiadas para o dia seguinte. Não vivemos “para”, mas vivemos “porque”.

Eu sei que parece pouco, que a maior parte das vezes chegamos ao fim do dia com a sensação de que desperdiçámos outro dia. Mas se calhar é esse o sentido da vida: desperdiçar os dias, lentamente, um a um, e quantos mais melhor.

Entretanto hoje de manhã li o seguinte trecho no livro de Henning Mankell que estou a ler. Parece que alguém respondeu às minhas dúvidas, não é?

"Hanna não compreendia como Berta podia aguentar um trabalho tão duro, que raramente durava menos de doze horas por dia. Começara a servir na casa de Forsman aos treze anos de idade. Contou a Hanna que o pai morrera num acidente na serração de Essvik, no ano a seguir a tuberculose matara a mãe, e todos os irmãos foram separados. Berta não se cansava de abençoar a sorte que tivera ao encontrar trabalho na casa dos Forsman. Embora fosse duro e sem perspectivas, sempre tinha um tecto onde se abrigar, uma cama onde dormir e três refeições por dia. Porque havia ela de se queixar? O que lhe dava direito a tal coisa?"