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tomorrowland: a world beyond + l'image manquante
rosas
innersmile
Não posso dizer que não me tenha divertido a ver a mais recente aventura da Disney, Tomorrowland: A World Beyond, dirigido por Brad Bird, o realizador de, entre outros, The Incredibles, Ratatouille, e do mais recente episódio de Mission Impossible. O filme é simpático, muito optimista, e sobretudo é uma aventura visual espantosa, em termos de efeitos especiais, sem dúvida, mas principalmente na concepção e na construção de uma visão do futuro, que é simultaneamente muito moderna mas também muito enraizada no imaginário futurista dos anos 50 e 60.

O problema é a narrativa, que nunca é muito eficaz, e nos deixa sempre na dúvida se estaremos de facto a ver um filme ou um longo teaser publicitário de mais um produto da gama Disney, a desenvolver em filmes futuros, em gadgets e outros brinquedos, e obviamente nos parques de diversão que a Disney tem um pouco por todo o mundo. Ou seja, durante o visionamento do filme nunca consegui afastar com eficácia a dúvida sobre se estaria a ser demasiado cínico ou a ser o objecto do cinismo da grande indústria do divertimento de massas.


Na outra ponta do espectro cinematográfico está o filme que fui ver ontem em sessão do Cineclube: l’Image Manquante, A Imagem que Falta, realizado por Rithy Panh, natural do Camboja, e que se baseia na própria experiência do seu autor, cuja infância foi passada sob o terror do regime do Khmer Vermelho de Pol Pot. Tratando-se de um documentário autobiográfico, Panh recorre a pequenas figuras de barro para encenar os caminhos da sua infância, intercalando esses segmentos com imagens reais do Kampuchea.

É, como se calcula, um filme fortíssimo, que dá conta do que foi viver, na esfera íntima, privada, familiar, as atrocidades do regime Khmer Vermelho. É esse, de resto, o seu principal traço distintivo: dar nome às vítimas, ainda mais do que rosto, já que faltam as imagens como o título do filme indica. E a violência e o horror acentuam-se com a ‘descolagem’ que o filme ensaia entre a crueza dos relatos, em voz off, e o aparente carácter lúdico (até porque é de uma infância que se trata) dos bonecos.

É interessante como a realidade retratada no filme parece tão distante, e no entanto é tão próxima. Afinal o Khmer Vermelho passou -se já no meu tempo, eu tenho memória própria desses acontecimentos, para mais vividos entre a exaltação do comunismo internacionalista e a descoberta do horror. No tempo da acção do filme, a segunda metade da década de setenta do século passado, eu, que tenho sensivelmente a mesma idade de Pithy Panh, vivi, de seguida, a exultação da revolução do 25 de abril, depois a descolonização e a independência da terra onde vivia, durante dois anos a experiência da construção de um regime comunista não muito diferente, na sua essência, e mesmo em alguns dos seus métodos, e por fim o abandono dessa vida para encetar uma outra, pós-colonial, e indelevelmente marcada por isso.
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the price of salt
rosas
innersmile


Sou fã da Patricia Highsmith há muito tempo, admiro-a não apenas como mestre do policial psicológico e do suspense, mas principalmente pelo domínio da narrativa, pela capacidade da escrita em criar tensão e conflito. Finalmente li este livro, há muito desejado, e quis lê-lo antes de estrear o filme que Todd Haynes fez a partir dele, com a Clate Blanchett e a Rooney Mara nos principais papéis (e já agora, devo dizê-lo, mesmo sem ter visto o filme nunca consegui deixar de associar a personagem da Carol ao rosto da Blanchett).

Trata-se da segunda obra que Highsmith publicou (depois de Strangers on a Train, e de ter vendido os direitos deste livro a Alfred Hitchcock), em início dos anos 50, e sob pseudónimo, dado o carácter 'delicado' do tema: um romance de amor entre duas mulheres, que termina bem porque, de facto, o amor verdadeiro vence tudo.

O que é mais admirável nesta obra, para além do seu carácter pioneiro e da coragem da sua autora (acrescida, dado que na génese do livro está um episódio autobiográfico), é que Highsmith carrega este romance de amor de todo o conflito e de toda a tensão que já conhecemos da sua obra policial. Therese e Carol são personagens complexas, que nunca compreendemos muito bem, nem no seu perfil nem quanto às suas intenções. Como em muitos dos seus outros livros (e percebe-se a atracção de Hitchcock), tudo parece estar em desfavor das personagens, todos os outros mas também todas as circunstâncias, elas parecem sempre ancorar-se numa solidão que é, ao mesmo tempo, a sua fragilidade e o seu esteio de resiliência, e só mesmo no final, nas derradeiras páginas, a coragem das personagens parece ser recompensada.