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vozes
rosas
innersmile
Ontem acordei às seis da manhã, com o gato a atirar coisas pesadas da estante para o chão de soalho flutuante (coitada da vizinha de baixo). Não consegui voltar a adormecer, e às seis e trinta estava farto de estar na cama e decidi levantar-me. Fui à cozinha, bebi água e tratei de alimentar o bicho. Vinha eu a atravessar o hall de entrada com o prato da comida do gato na mão, ouço distintamente uma voz, masculina, a chamar o meu nome: Miguel. Quase como se estivesse ali ao meu lado.

Olhei logo para o gato, mas ele, como habitualmente, caminhava à minha frente com o ar frenético que sempre põe quando sabe que vai comer. Olhei em volta, já a começar a racionalizar que devia ter sido uma alucinação auditiva. Acontece-me não propriamente com frequência, mas de vez em quando, aquela sensação de que ouvimos uma voz, por vezes a voz de alguém conhecido, muitas vezes a chamar-nos pelo nome. Mas desta vez era diferente, era demasiado distinto e presente.

Estava ainda um pouco atordoado quando tornei a ouvir a mesma voz a chamar pelo nome, seguida de um leve toque na porta. Era um dos meus vizinhos, a avisar-me de que tinha havido uma inundação numa das lojas do rés-do-chão, a energia eléctrica do prédio tinha feito curto-circuito e a porta da garagem só se podia abrir manualmente. Foi simpático, porque sabe como eu sou nabo nesse tipo de coisas (e nas outras também) e calculou, bem, que eu não conseguiria abrir a porta para sair com o carro.

Desci com ele, tirei o carro cá para fora, agradeci, e voltei para casa, para me arranjar para ir trabalhar. Mas aquela sensação estranha de um tipo estar sozinho em casa, com o seu gato, às seis e meia da manhã, e ouvir chamar pelo seu nome, ficou comigo o dia todo, e ainda sinto um leve arrepio quando me lembro.