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herberto helder e manoel de oliveira
rosas
innersmile
Não chegarei ao ponto do ministro Aguiar Branco que afirmou na TV (eu ouvi, juro) que tinha sido uma felicidade para o economista José da Silva Lopes ter morrido no mesmo dia em que faleceu Manoel de Oliveira; mas foi uma coincidência assinalável, e triste, termos perdido dois grandes vultos da cultura portuguesa, Oliveira e Herberto Helder, num espaço de tempo muito curto, uma semana ou pouco mais.

Unia Oliveira e Helder o facto de serem, cada um no seu campo, eventualmente os nomes maiores da cultura portuguesa contemporânea; mas unia-os igualmente a circunstância de não serem, um e outro, nomes fáceis, de cedência ao gosto popular, celebridades pop. Quer o cinema de Oliveira quer a literatura de Helder eram exigentes, requeriam trabalho dos seus leitores ou espectadores.

Curiosamente, em mais uma demonstração deste nosso jeito tão português de louvar na morte o que desprezámos ou mesmo vilipendiámos em vida, ambas as mortes foram rodeadas de grande sobressalto mediático e muita louvaminhação. Mais Oliveira, é certo; mas mesmo assim, sobretudo nas redes sociais, não houve alma que não tivesse publicado umas citações do poeta.

Apesar de saber de cor alguns versos de Herberto Helder, nunca fui um leitor feliz e consequente da sua obra. Sempre experimentei muita dificuldade em entrar, e entender, no seu universo. Sem dúvida, estou convicto, por incapacidade minha, por não possuir os instrumentos e as ferramentas que me permitam absorver, mais do que pela simples melopeia das palavras, o universo muito simbólico e codificado, negro, mas simultaneamente sensorial e fulgurante, do poeta. Agora, estou a ler, devagar, Os Passos em Volta, um conjunto de textos narrativos publicado originalmente nos anos 60, mas a sua poesia permanece para mim muito indecifrável.

Já quanto a Manoel de Oliveira, posso reclamar-me mais conhecedor da sua obra, sobretudo ali por finais da década de 70 e década de 80, em que vi a maior parte dos filmes que realizou na época. É um cineasta que admiro, quer nos pressupostos do seu cinema, quer no que toca aos resultados, ou seja os próprios filmes, quer mesmo naquilo que se poderá denominar o estilo Oliveira que, curiosamente, é, mesmo depois da sua morte, muito caricaturado através de uma série de clichés que, para além de na sua maioria nem corresponderem à verdade, aprisionam o espectador inibindo-o de ver mais, melhor e com maior intensidade.

Apesar disso, não deixa de ser bonito ver como a figura de Manoel de Oliveira é objecto de um certo carinho popular. Se não pelo valor intrinseco do seu cinema, ao menos porque toca e comove as pessoas não apenas a sua longevidade, mas também a tenacidade com que o realizador dedicou os seus longos anos a fazer cinema.