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mês
rosas
innersmile


Faz hoje um mês que a minha mãe morreu. Por um lado, parece-me que já foi há muito tempo, que este mês foi enorme, cheio de acontecimentos e decisões, que correu muita vida já sem a minha mãe. Por outro, tudo ainda me parece muito provisório, em aberto, à espera de resolução. Houve uma coisa que acabou, e ainda não há uma outra coisa no lugar dela. Tenho sempre o sentimento de que ainda me falta fazer um telefonema. Ainda hoje à tarde, quando fui ver o meu pai, aconteceu qualquer coisa e o meu pensamento imediato foi de que tinha de contar essa coisa à minha mãe.

Tenho estado a guardar muito poucas coisas, dos meus pais ou da sua casa. Houve coisas que já foram dadas, muitas ainda estão à espera de uma decisão. Como não consigo carregar nada escadas acima, familiares e amigos vieram trazer, há pouco, cá para casa os poucos móveis com que vou ficar. Uma estante pequena e fechada, sem grande interesse, mas muito prática para proteger do gato certos objectos. Uma mala de madeira, dizem que boa, que eu não sei quando nem como foi para casa dos meus pais, e que decidi guardar porque tenho muito pouco espaço de arrumação cá em casa. E uma cristaleira em madeira trabalhada, das poucas peças que vieram de Moçambique, e que não tem grande utilidade, serve para guardar bibelots, mas que passa a ser o único móvel que tenho que vem desde lá de trás, da minha infância.

Para além de todo o indizível (tenho dois curtíssimos textos que escrevi sobre o assunto, é-me muito difícil escrever), custa-me muito a casa dos meus pais estar tão desarrumada: é a sua vida e é a minha memória, que se desmantelam. Sinto sempre um choque enorme quando tomo consciência de que a vida, a minha, a dos outros, a Vida ela própria, prossegue sem a minha mãe, e ver a casa assim toda desarrumada, a dissipar-se, aprofunda o sentimento de absurdo.

E vai custar-me muito quando, das roupas e dos móveis passarmos aos objectos pessoais, aos papeis, às fotografias. Tudo isso ainda permanece intocado. Mas já tenho trazido algumas coisas, aquelas que acho que são mais antigas, e as de que eu mais gostava. Como um quadro, um bordado que a minha sobrinha fez quando era criança para oferecer à minha mãe e que tem estado desde sempre pendurado na parede da sala. Já está cá em casa.

À tarde, antes de me virem cá trazer os móveis, fui levar o gato a casa da ‘madrinha’. Vai lá ficar até domingo. Já tenho a mala do carro cheia de coisas dos meus pais, para entregar aos meus sobrinhos. A mochila está pronta. Amanhã de manhã, cedinho, arranco para baixo. Vou buscar a minha sobrinha ao aeroporto, e depois vamos para ao pé da minha baby, de quem estou cheio de saudades.