February 9th, 2015

rosas

de que falamos quando falamos de amor

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A descoberta das histórias de Raymond Carver, nos distantes anos oitenta, foi das mais fulgurantes experiências da minha vida de leitor. Foi mais ou menos na altura em que o escritor faleceu, com uns trágicos cinquenta anos de idade, e a Teorema publicou a tradução dos seus três livros de contos. Mais tarde comprei uma edição inglesa integral dos contos, li os seus livros póstumos, poemas, e até uma biografia publicada por Tess Gallagher, a sua mulher. Eu já tinha falado aqui uma vez do Carver, e à muita vontade de o reler, juntou-se o facto de, recentemente, o filme Birdman, de A.G. Iñarritu, utilizar um dos contos mais famosos do autor como peça central da narrativa.

Peguei por isso em De Que Falamos Quando Falamos de Amor, a segunda colecção de contos de Carver, na minha velhinha edição da Teorema, com uma belíssima capa de Jorge Colombo, e que contem o conto com o mesmo título que é usado no filme de Iñarritu. Para além desta, o livro contém ainda a primeira versão de uma história em que Carver tornaria a pegar num outro livro, sobre uma mulher que encomenda na pastelaria um bolo para o aniversário do filho, que é atropelado por um carro precisamente no dia em que faz anos.

As histórias de Ray Carver são sempre muito secas, sem ganga nem gorduras, poupadas nos adjectivos. E no entanto são muito líricas, há emoções muito fortes que se adivinham nas entrelinhas, são pedaços de vidas que já existiam antes das histórias as encontrarem, e que vão continuar depois delas. As personagens são quase sempre da classe média, há muito álcool pelo meio, e são um bocadinho como os animais moribundos, esperam a sua morte com uma espécie de tranquilidade, entregues às suas pequenas vidas. Ou como um tipo que conduz serenamente o seu carro pela auto-estrada numa bela manhã de primavera, sem fazer ideia de que vai ter um acidente dali a poucos quilómetros.

Ray Carver foi um grande escritor, um dos maiores do seu tempo, e dos mais influentes (eu que o diga, que escrevi muitas páginas a tentar imitar o seu estilo, diga-se em abono da verdade que com um sucesso miserável!) Foi muito bom redescobri-lo intacto, mais de vinte e cinco anos depois de o ter lido pela primeira vez.