February 4th, 2015

rosas

factura detalhada

Estou semanas e semanas sem entrar em casa dos meus pais. Aliás, este ano ainda só lá entrei duas vezes, sempre muito à pressa, e uma delas, no passado domingo, acompanhado. Mas passo regularmente pelo prédio para ir buscar o correio.

Na sexta-feira passada estavam na caixa de correio as facturas do telemóvel (já pedi a alteração da morada, mas pelos vistos demora), referentes ao mês de dezembro. Normalmente pago entre os dez e os quinze euros, e nos meses maus sobe acima dos vinte. Nesse mês foi de quase oitenta euros, mais do que eu estava à espera, pois já calculava que ia ser uma conta mais elevada do que o habitual, claro.

Como recebo factura detalhada, quando cheguei a casa ( e depois de restaurar um pouco a ordem reinante, que o gato quando está sozinho põe tudo de pantanas) pus-me a correr o registo das chamadas. É fácil adivinhar as convulsões que aconteceram nesse mês de dezembro, os dias impossíveis, em que os telefonemas são às dezenas, muitos deles para números internacionais, nomeadamente para o meu irmão. São páginas e páginas de números de telefone, com o registo do dia, da hora e da sua duração.

Há ali uma série de três dias infernais: numa quarta-feira, recebi a convocatória para baixar ao hospital para ser operado na semana imediata; no dia seguinte, a tratar de arranjar uma solução para a minha mãe enquanto eu estivesse internado; e na sexta-feira, o dia em que fui à urgência de ortopedia com ela. Depois, na altura do natal outro pico de chamadas, quando a minha mãe foi internada no serviço de cuidados paliativos, onde ainda permanece.

Aos poucos a irritação de ter uma conta tão alta para pagar foi dando lugar à angústia daqueles dias, e que, ao mínimo pretexto, volta à superfície, não apenas porque foi muito intensa e provocou feridas difíceis de reparar, mas também porque as situações se mantêm, mas estão adormecidas pela rotina e pela lufa-lufa do dia-a-dia. E é incrível como os nossos sentimentos e as nossas emoções podem transbordar assim a propósito de um assunto tão prosaico como uma estúpida conta de telefone.