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american sniper
rosas
innersmile
A doutrina divide-se. Fui ver no fim de semana o filme do Clint Eastwood, American Sniper, com o meu amigo Zé, e as nossas opiniões são absolutamente contrárias. Ele detestou o filme, que achou um exercício falseado, manipulador e maniqueísta sobre a necessidade ideológica americana de consagrar a vitória do bem sobre o mal, que neste caso são os muçulmanos. Eu gostei bastante do filme, porque achei que Eastwood, na linha do que já fez noutros filmes mais ou menos recentes, faz um filme contra a guerra, opondo a necessidade de salvaguardar o bem comum (ou seja, o heroísmo) à violenta destruição moral e psicológica que a guerra sempre provoca nos indivíduos, tanto naqueles que a combatem como no seu círculo social e familiar. A lição do filme de Eastwood parece-me ser esta: é verdade que precisamos de heróis, mas eles só existem à custa do seu próprio sacrifício, e daqueles que os amam. O heroísmo é um absurdo que não faz qualquer sentido e apenas serve para destruir tudo e todos à sua volta.

Esta discussão entre o carácter político do filme ou a sua dimensão dramática, tem marcado a carreira do filme (só ultrapassada pela questão do bebé de plástico), rodeando-o de polémica. O que de certo modo resulta contra o filme, que não consegue ser absolutamente claro no seu programa, assentando antes em ambiguidades que não soube ou quis resolver. Seja como for, é sempre, para mim claro, estimulante o cinema de Eastwood. E mesmo que o filme não seja aquela concentração minimalista de fibra e osso que o seu cinema costuma reflectir, ainda assim é admirável como Eastwood consegue manter sempre um nível de tensão muito razoável, não dando tréguas ao espectador do incómodo perturbador que consegue instalar logo quase ao primeiro take, quando o pai do sniper o leva a matar a sua primeira peça de caça. Nunca é fácil a vida do espectador dos filmes de Clint Eastwood, porque nunca são fáceis as vidas das suas personagens, e porque, de resto, e ao contrário do cinema, a própria vida nunca é fácil.

Porque o diz com incomparavelmente mais competência do que eu, gostaria de deixar aqui os links para dois textos do João Lopes, sobre este tema, publicados no blog Sound + Vision:
O "sniper" de Clint Eastwood (1/2)
O "sniper" de Clint Eastwood (2/2)

Só acrescentar que achei interessante o João Lopes invocar o Million Dollar Baby, pois passei a sessão a lembrar-me desse fantástico filme do Eastwood e de como este American Sniper poderia quase ser uma reescrita desse filme.
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