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WAKE UP AND...
rosas
innersmile
WAKE UP AND...

A preparação começou na véspera. Ao jantar deram-me apenas uma sopa. Depois, quando me levaram para a enfermaria, aplicaram um clister de limpeza. Antes de dormir, uma enfermeira veio colocar um cateter nas costas da minha mão esquerda. Foi difícil e até um pouco doloroso, as veias são más, estão estragadas. Dormi bem, apesar dos companheiros de quarto serem um pouco barulhentos. Como era o primeiro do plano cirúrgico, por volta das seis e trinta uma enfermeira veio acordar-me, para ir tomar banho. Esfreguei-me com um sabão liquido desinfectante, vesti uma bata aberta atrás e voltei para a cama. Ainda antes das sete e meia um enfermeiro e uma auxiliar vieram buscar-me. Guardei o telemóvel no saco de viagem, sem o desligar, e fechei a porta do roupeiro à chave. Fui deitado na própria cama da enfermaria, empurrada ao longo dos corredores, com a pasta do processo clínico pousada sobre os meus pés. Lembrei-me de um filme cómico em que as portas eram abertas com grande estrondo pela própria cabeceira da cama. Depois de descer no elevador central, mais um corredor comprido e mal iluminado, até uma sala onde a cama foi estacionada junto a uma parede, num lugar numerado, alinhada com outras. Reconheci ao meu lado o Nigel, um inglês que também tinha sido internado na véspera. Por duas vezes uma enfermeira veio até junto de mim, folheou o processo que estava aos pés da cama, e perguntou se eu me estava a sentir bem. Começou a conversar com uma mulher que estava deitada na outra cama ao lado da minha, e que tinha caído de uma oliveira quando andava a apanhar azeitonas, dizendo-lhe para ir contar a experiência aos conterrâneos, de forma a terem mais cuidado, que todos os anos havia pessoas hospitalizadas por quedas dadas na apanha da azeitona. A certa altura, essa enfermeira e um colega empurraram a minha cama até junto do transfer e iniciaram o procedimento de me transferirem para dentro do bloco. O enfermeiro estava a contar à colega como tinha sido, na véspera, a festa de natal na escola dos filhos, na qual tinha participado, e mostrou-lhe algumas fotos no telemóvel. Como eu tinha apertado o botão da bata, atrás, ele depois de uma tentativa para o desapertar, optou por dar um esticão e arrancar o botão. Senti a superfície fria do transfer nas costas e tive de encolher as pernas, porque o tapete de metal era mais curto do que eu. Do outro lado fiquei logo posicionado na mesa operatória. A enfermeira que me recebeu apresentou-se e disse-me que ia estar sempre comigo durante o procedimento anestésico e durante a intervenção. Fomos a conversar até à sala e chegámos à conclusão de que, uns anos antes, trabalhámos ambos noutro hospital. Mal estacionou a mesa por baixo do candeeiro, a enfermeira começou os preparativos, a abrir caixas e a rasgar invólucros esterilizados. A porta da sala abriu-se a alguém chamou pelo meu nome: outra enfermeira, que também tinha sido colega de trabalho em tempos, aproximou-se e baixou a máscara do rosto para me cumprimentar com dois beijos. Depois foi-se colocar junto à minha mão esquerda e começou a arranjar o cateter, sempre a conversar comigo, fazendo perguntas sobre o meu actual local de trabalho. À nossa volta, o barulho e a confusão iam aumentando, à medida que chegavam mais pessoas. Um enfermeiro, que eu não conhecia, aproveitou para se queixar de como estava revoltado por não lhe autorizarem a transferência para um centro de saúde, por troca com um colega. O médico cirurgião, igualmente meu conhecido de outras circunstâncias profissionais, também me veio cumprimentar. Entretanto chegou o anestesista que, depois de conversar um pouco comigo, se colocou atrás da minha cabeça. Alguém, uma voz feminina, perguntou ao cirurgião se queria que me posicionassem de imediato ou apenas depois da anestesia e ele respondeu que apenas depois da anestesia. O enfermeiro que queria ser transferido para um centro de saúde perguntou ao anestesista ‘dois cê-cês?’ e ele respondeu ‘dois cê-cês’. O enfermeiro começou a injectar algo numa via do sistema junto ao cateter e disse-me que era apenas porque o anestésico ardia um pouco e assim não seria tão incómodo. Alguém mencionou a palavra propofol. O anestesista colocou em frente à minha boca um aparelho que fazia um ruído surdo, e eu disse que estava a sentir um ardor no braço. Alguém respondeu ‘já passa’. Quando acordei na sala de recobro, olhei para um relógio grande na parede à minha frente e reparei que eram nove horas e cinquenta minutos. A mesma enfermeira que me dera dois beijos na sala operatória chegou junto a mim e disse-me que tinha corrido tudo bem, desejou-me boa sorte e despediu-se, tinha que voltar para a sala, estavam outros doentes à espera. Uma outra enfermeira cumprimentou-me, disse o nome, e perguntou se eu tinha dores. A braçadeira do medidor da tensão arterial começou a inchar e eu levantei os olhos para o monitor, colocado por cima da minha cabeça. A máxima estava acima dos cento e setenta e um alarme começou a tocar. Uma médica ainda jovem disse-me que ia experimentar tirar o oxigénio e perguntou se eu estava a respirar bem. Quando a braçadeira começou a inchar de novo, passados poucos minutos, tornei a olhar e reparei que a máxima já tinha baixado, estava em cento e sessenta e quatro, e o alarme não disparou. Devo ter adormecido de novo e quando acordei senti um cheiro muito intenso a café.
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