January 20th, 2015

rosas

the imitation game

É engraçado, fui procurar a entrada aqui do innersmile onde me referi pela primeira vez ao Alan Turing, a propósito do livro The Man Who Knew Too Much, a biografia que sobre ele escreveu o David Leavitt. No texto que então escrevi refiro-me ao facto de Turing ser considerado um dos inventores do computador, ou da máquina de computação para ser mais rigoroso, e à circunstância de ele ser homossexual e se ter suicidado na sequência de um processo judicial em que foi condenado pela prática do crime indecente; apenas em rodapé me refiro ao facto de ele ter sido o criador da máquina capaz de desencriptar as mensagens de guerra naval nazis e com isso ter entrado na história da II Guerra Mundial.

É precisamente essa a “ponta”, a da descodificação da máquina conhecida por Enigma, por onde Morten Tyldum pega na biografia de Turing para construir The Imitation Game, a biopic dedicada ao matemático inglês que foi “perdoado” há dois anos pela rainha de Inglaterra dos seus crimes nefandos em nome do seu contributo para o desfecho da guerra contra a Alemanha nazi.

É um pouco estranho que durante a primeira parte do filme não se mencione sequer a homossexualidade de Turing, mas de certo modo isso corresponde à lógica narrativa do filme: envolver o espectador no thriller de guerra, instalar a personagem como peça importante do esforço de guerra para com isso conseguir a simpatia da audiência, nomeadamente capitalizando o lado de génio com as suas idiossincrasias, e só então desenvolver o absurdo que foi a sua morte precoce, em profundo contraste com o seu papel de ‘salvador da pátria’.

O filme desenvolve-se em três planos narrativos: o da infância de Turing, que dá sempre jeito para explicar o futuro das personagens, o da guerra propriamente dita e dos esforços para criar a máquina capaz de desencriptar a Enigma, e o da actualidade do filme, ou seja, da década de 50 quando Turing é preso, e que dá a voz off que serve de narrador do filme. Muita da sua eficácia repousa no trabalho do actor Benedict Cumberbatch, que ganhou, graças a este papel, uma nomeação ao Oscar de melhor actor.

Gostei bastante do filme, e reconheço-lhe o mérito de trazer para o grande público uma das páginas mais exemplares e absurdas da história da homossexualidade no século XX, nomeadamente em Inglaterra, onde foi particularmente infame até aos anos 60. Mas não alimentou o meu fascínio pela personagem de Alan Turing; esse, devo-o todo ao livro brilhante do David Leavitt.