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dom casmurro
rosas
innersmile
82888

Pela terceira vez consecutiva, comecei o ano a ler Machado de Assis. Desta vez, Dom Casmurro, que, de tudo o que li do autor (Brás Cubas, Quincas Borba e a colecção de contos Papéis Avulsos), parece-me ser o melhor, uma verdadeira obra-prima.

É incrível a modernidade da sua escrita, uma noção de romance que não conhece espartilhos ou barreiras, tudo serve para fazer progredir a narrativa, para prender a atenção do leitor, mas sobretudo para criar um romance que faz uma leitura do mundo e da sociedade, mas que simultaneamente é capaz de criar personagens complexas e profundas, psicologicamente densas, com personalidade e carácter. E neste caso em concreto, fá-lo de maneiras distintas: Bentinho, que é o narrador, pela sobre-exposição; e Capitu, que apenas conhecemos através do olhar do narrador, pelo mistério e pela ocultação.

E depois, Machado de Assis tem um humor fabuloso, uma ironia distinta, que nunca é ácida como em Eça de Queirós, ao invés até parece terna e simpática para os personagens, o que tem por efeito, claro, torná-la ainda mais forte. E é um humor muito actual, tão coincidente com o nosso que nunca o olhamos com condescendência. Mesmo já conhecendo do autor as obras que referi, este olhar ao mesmo tempo tão contemporâneo e divertido nunca deixa de me surpreender. Não consigo pensar em Machado de Assis como um autor clássico, do século XIX, mas encaro-o sempre como alguém do meu tempo, o mundo que ele olha é, apesar de tudo, ainda o nosso, de hoje.