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the kindness of strangers
rosas
innersmile
É uma das minhas citações preferidas. No final de Um Eléctrico Chamado Desejo, quando é levada de casa para ser internada numa instituição psiquiátrica, Blanche DuBois pronúncia a frase célebre: "I've always depended on the kindness of strangers". A crueldade deste final acompanha o tom do restante filme (é sempre o filme de Kazan que me vem à ideia, mais do que a peça de Tennessee Williams), e a frase está carregada de ironias: em relação à própria situação (Blanche acreditando na cortesia de quem a leva compulsivamente), em relação à sua própria vida (aquilo que lhe parecia kindness de facto era predação sexual, de que ela era vítima), e até em relação ao facto de, ela que vivia num mundo de fantasia, ser internada porque finalmente disse uma verdade, a de que foi violada por Stanley, o seu cunhado, ocorrência em nem a própria irmã acredita.

Mas independentemente de toda esta ironia trágica, a frase não deixa de ser intensa e profundamente verdadeira: muitas vezes na vida, dependemos mais da bondade de estranhos. E ao longo dos últimos meses tenho experimentado isso, pessoas que não conhecia de todo, ou com quem tinha apenas uma relação formal e distante, saem da sua zona de conforto, não apenas para me manifestarem a sua solidariedade, mas inclusivamente para me prestarem alguma ajuda concreta.

Essa bondade dos estranhos foi também uma das coisas que o innersmile sempre me deu, quase desde o primeiro dia. Claro, muitos desses estranhos tornaram-se meus amigos, contando alguns deles entre os meus melhores e mais íntimos amigos. Mas muitos outros tem havido que nunca passaram dessa condição, de absolutos estranhos, mas que por uma razão ou outra, em determinado momento estiveram muito próximos e ofereceram-me a sua bondade. Por vezes apenas através de um simples comentário a uma entrada no blog, outras através de uma troca de mails, ou mesmo, como aconteceu, através de coisas em concreto, por exemplo de prendas que me enviaram por correio.

Nos últimos dias recebi dois e-mails de perfeitos estranhos, pessoas que, referem, lêem o innersmile, eventualmente sem nunca terem comentado, e que sentiram o impulso, ou melhor a vontade de me escrever para me estender a sua bondade. Calaram bem fundo essas mensagens, e deixaram-me comovido, confortado e feliz. Não houve um único amigo a mais, entre todos os que me têm dado mimos e carinho ao longo destes dias. Mas o André e o António saíram da zona indistinta onde estão aquelas pessoas que lêem o innersmile sem se darem a conhecer, e alimentaram, de modo tão atento e empenhado, esta minha dependência da bondade dos estranhos.

janelas
rosas
innersmile

Agora é pelas janelas que falas comigo. As janelas da tua casa, cerradas, vazias, vão dando hábito à tua ausência, quando abrando o carro até quase parar sempre que passo à tua porta. A janela iluminada do quarto que agora é teu, tão interinamente teu, que brilha na escura parede envidraçada, quando, à noite, dou só mais uma volta à rotunda, tentando divisar os teus sinais. Vivemos, os dois, ainda juntos, na profunda divisão da espera. Eu tento segurar tudo o que me resta, não deixar escapar, guardar para depois. Prendo-me às janelas, como o olhar se desprende devagar.