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Como já aqui referi, ofereci na noite de Natal à minha mãe um livrito com uns poemas muito simples que escrevi como se fossem letras para fados, que fui pondo ao longo dos anos aqui no innersmile. Ela adorou o livro.

Aqui há umas semanas, ao serão, lembrei-me de começar a ler-lhe alguns desses poemas. É curioso, porque estando o meu gosto pelo fado tão ligado à minha mãe, em parte por pudor, mas também por distracção ou esquecimento, nunca lhos tinha mostrado, ao contrário do que faço com algumas coisas que escrevo (aquelas que eu acho que são “legíveis” aos olhos maternos). Ela gostou muito dos poemas e pediu-me logo para os imprimir e fazer uma colecçãozinha para ela guardar dentro do seu exemplar do livro de poemas de Reinaldo Ferreira, que é onde vai juntando essas coisas que eu lhe dou a ler.

Eu copiei os poemas para um ficheiro e pedi ao meu amigo João Máximo, emérito editor, que me fizesse um arranjo gráfico ‘bonitinho’ para ficar uma prenda catita. O João, que é de uma generosidade que mereceria mais do que somos capazes de expressar, deu-os a ler ao Luís e à Patrícia, e propos-me editá-los num livro com o título Fados, para a qual fez uma capa lindíssima. Não eram precisas mais provas da sua generosidade, mas ainda assim o João tratou de concluir a edição em tempo relâmpago, e pôr o livro à venda numa loja com print-on-demand, que me permitisse encomendá-lo a tempo do Natal.

Fiz a encomenda na terça-feira dia 9, e dei a morada para entrega do meu local de trabalho, por ser o modo mais eficaz de me chegar às mãos em tempo útil. No dia imediato recebi uma chamada do hospital para baixar na segunda-feira seguinte, para ser operado. Nesse dia, estava eu na sala de visitas da enfermaria à espera de cama para ser internado, recebo um telefonema da transportadora a dizer que a encomenda tinha chegado e que a iriam entregar na manhã seguinte, pedindo orientações para o efeito. Telefonei a uma colega de trabalho, e pedi-lhe para receber a encomenda e a guardar numa das gavetas da minha secretária, o que aconteceu precisamente na manhã em que fui operado.

Na terça-feira, dia 23, já depois de ter tido alta, fui da parte da manhã ao meu local de trabalho para, entre outras coisas, trazer a encomenda dos livros a tempo de oferecer um deles à minha mãe. Quando voltei para casa, o seu estado de saúde tinha piorado muito, ela estava com períodos de perda de consciência, e uma apneia gravíssima. A solução foi interná-la de imediato na unidade de cuidados paliativos. Antes de sair de casa da minha mãe, para a companhar ao hospital, meti a caixa de cartão com os livros na sacola que trazia, e guardei-a na mala do carro.

Fui passar a noite de Natal com a minha mãe, pois a unidade de cuidados paliativos tem um horário de visitas alargado e promove o acompanhamento dos doentes pelos seus familiares. Antes de sair de casa, pelo sim pelo não, peguei num dos exemplares do livro que tinha encomendado, e como encontrei a minha mãe muito bem disposta, lúcida como no seu melhor, ofereci-lhe o livro. Ela ficou comovidíssima! Eu também, claro. Apesar de não ter os óculos, que tinham ficado em casa, fez um esforço para conseguir ler o livro, a capa e a contracapa, as páginas introdutórias, e até alguns dos poemas. Adorou o texto que o João escreveu para a contracapa, que leu e releu vezes seguidas. No dia de Natal levei-lhe os óculos e ela passou um tempo imenso a ler e a reler o livro. Foi neste dia, ou melhor, ao fim da tarde deste dia de Natal, que lhe tirei a fotografia que ilustra este texto.

Infelizmente, desde quinta-feira o estado de saúde da minha mãe piorou, ela voltou a ficar muito ensonada, e até um pouco confusa, julgo que por causa da forte medicação analgésica que está a fazer. Mas sempre que lhe falo no livro, os olhos até brilham.

Entretanto, a Index eBooks, a editora do João e do Luís, decidiu lançar hoje o livro, razão pela qual escolhi também o dia de hoje para falar mais detalhadamente dele e da sua história. Julgo que neste momento já está disponível nos sítios habituais da editora, e onde estão igualmente os links para quem o quiser comprar, em formato ebook ou em versão impressa através do método print-on-demand, e que são os seguintes:
www.indexebooks.com/
index-books.blogspot.pt/

É um livro simples, pequenino (quase uma plaquete, como se dizia antigamente), os poemitas não têm grande valor, são coisas escritas quase na brincadeira, mais para fazer o gosto ao dedo, e ao ouvido, do que outra coisa. Mas por estes dias, transformou-se no livro mais importante do mundo, e eu nunca fiz ou farei outro que brilhe com o brilho que este teve neste Natal, que foi o mais angustiante mas também o mais pungente que eu já passei. E se o livro é, naturalmente, para a minha mãe, é também para o João Máximo, que nos deu, a ela e a mim, uma dádiva para a qual a palavra gratidão parece tão diminuta e incapaz.