December 13th, 2014

rosas

o curso das estrelas, pode um desejo imenso, à beira do mundo

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Relida, no meio do tumulto que têm sido os dias, a trilogia de Frederico Lourenço, nos três volumes em que li originalmente, mas agora pela ordem cronológica. A leitura recente de um livro de ensaios sobre dança clássica, e as crónicas diárias que o autor tem publicado no Facebook (suspensas desde ontem, hélas!), faziam-me querer voltar aos romances que me deram a conhecer o escritor, ainda antes das renomadas traduções de Homero.

E esta releitura confirmou a impressão de estar perante um dos mais conseguidos romances (ou trilogia de romances) da literatura portuguesa contemporânea. Eruditos e de uma elegância a toda a prova, são simultaneamente de uma simplicidade desarmante, que torna a leitura compulsiva. Uma aparente superficialidade ou leveza da narrativa arrasta-nos para o interior mais denso das personagens, expondo-as com uma crueza que é, ao mesmo tempo, perversa e comovente.

Se Pode Um Desejo Imenso, o volume inaugural, que dá título à cronologia e que aparece em segundo lugar na cronologia da história, impressiona pela maneira como consegue incorporar o ensaio camoniano no próprio mecanismo ficcional, o conjunto destaca-se ainda pelo tom de farsa com que traça o desenho de um determinado grupo social e geracional, culto, urbano, influente, académico, com tiques e modos de stiff upper lip.

Claro que os escritores seguem os seus percursos (os seus cursos, para parafrasear o título de um dos romances), mas não conseguimos evitar uma pontinha de tristeza pelo facto de Frederico Lourenço nunca mais ter pegado no romance, ou no género ficcional em geral, para dar azo ao seu imenso talento de escritor e homem de cultura. Há pouquíssima gente a escrever desta maneira, com este saber, proporcionando uma leitura tão rica e prazeirosa.