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um dia de cada vez
rosas
innersmile

Quando o despertador tocou, hoje, às seis e cinquenta, por um momento tive a sensação de que estava a recuperar a minha confortável rotina e de que os últimos dias tinham sido um pesadelo. Possivelmente estaria a sonhar porque demorei uns segundos a ajustar a minha mente à realidade. Wake up and smell the coffee.

Pode ser que regressar ao trabalho, depois de apenas uma semana fora, me ajude a ganhar perspectiva e balanço, mas o ponto é que raramente ao longo da minha vida me senti tão asfixiado e fora de controlo.

Na segunda-feira, fez ontem oito dias, internei o meu pai numa casa de saúde para doentes do foro psiquiátrico, onde ficará até ao dia dois de janeiro. Na terça-feira e na quarta, tentei procurar soluções para depois dessa data, e cheguei à conclusão que a única alternativa seria, depois da alta, trazê-lo para casa. Na quinta-feira fui fazer uma cistoscopia de controlo e voltaram a aparecer lesões neoplásicas, o que significa que entre este mês e o próximo terei de fazer nova intervenção cirúrgica do género da que fiz em maio de 2012. Um procedimento simples, mas sempre com uma certa dose de risco e outra bastante razoável de dor e desconforto.

Ainda na quinta-feira, ao fim da tarde, a minha mãe caiu em casa. Não partiu nada, mas perdeu a pouquíssima mobilidade que tinha e neste momento apenas se consegue deslocar em cadeira de rodas, o que coloca, entre outros, problemas de logística nos próximos dias, e uma solução que ainda não sei qual será em termos de apoio doméstico. Desconfio que este agravamento está ligado à progressão da doença oncológica, mas só na sexta-feira, na próxima consulta, o poderei saber.

Consegui, com a ajuda das cuidadoras, das vizinhas e dos poucos familiares que me estão próximos, estabilizar a situação da minha mãe, e fui, porque estava há muito programado e porque me sentia quase a estoirar de preocupação, passar o fim de semana à Covilhã, com três amigos especiais.

Foram dois dias belíssimos, como já aqui referi, mas quando regressei no domingo ao fim da tarde, voltei a sentir o peso do desespero e da desistência. São demasiadas preocupações e receios para conseguir gerir com alguma serenidade e distância, sinto uma solidão quase absurda, e passam-me pela cabeça as ideias mais terríveis, de que até tenho pudor em falar. Sempre que acho que o pior já chegou, descubro que afinal o quadro ainda pode piorar. Como dizem os outros, ninguém disse que era fácil, mas também ninguém me avisou de que seria tão difícil.

Conforta-me e comove-me muito o apoio e o carinho que tenho recebido de algumas pessoas, algumas delas as mais insuspeitas. Há pessoas, nomeadamente no meio profissional, o mais inesperado, que fazem tudo para me ajudar a resolver problemas ou remover obstáculos.

Sempre procurei, e sei que nem sempre consegui, manter este diário on-line fora do registo confessional. Sendo íntimo e pessoal, nunca foi o meu poço dos desabafos. Mas, como já disse noutras ocasiões, escrever ajuda-me a ordenar ideias, a pôr os pensamentos em perspectiva, a ganhar uma distância quase como se tudo fosse literatura, e não a vida real. Mas há momentos em que a vida real ocupa todo o espaço e, valendo pouco o que aqui vou escrevendo, e poucas também a disponibilidade e a disposição para o fazer, este diário é, como sempre, o que eu vou sendo capaz de fazer com ele. Um dia de cada vez.