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arkansas, e o resto
rosas
innersmile
arkansas

Tenho sempre muitos projectos para fazer releituras, mas as novidades sempre me impedem de pegar nos livros mais antigos. E o Arkansas do David Leavitt era dos que mais tinha vontade de reler, porque uma das histórias do livro tinha deixado uma marca muito impressiva na minha memória e estava cheio de vontade de a revisitar. Trata-se de Trabalhos de Artista, uma das três novelas que compõem o volume, sobre um escritor chamado David Leavitt que decide escrever trabalhos escolares para estudantes universitários em troca de favores sexuais. O humor do conto é notável, e o tom é sempre muito forte, só no final soçobra um pouco. Mas as outras duas novelas são igualmente impecáveis, uma sobre uma reunião de um grupo de amigos americanos, antigos colegas universitários, numa aldeia de Itália, a outra sobre um escritor nova-iorquino que arranja um emprego em Los Angeles, e decide oferecer-se como voluntário para distribuir refeições a doentes de sida.

A qualidade da escrita do Leavitt nestas três novelas é muito boa, e, na minha opinião, ele é de facto melhor a escrever histórias mais curtas do que romances (a excepção é The Indian Clerk, que para mim é o seu melhor livro). E como todas as grandes obras, capta muito bem o espírito do tempo em que foram escritas (transição da década de oitenta para a de noventa), e de certa maneira é isso que as torna tão interessantes mesmo na perspectiva actual.

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Ando com pouco tempo, e sobretudo sem nenhuma 'cabeça' para escrever aqui. Apesar de estar de férias esta semana, isso só me tem servido para afastar a tensão que as obrigações profissionais sempre provocam. Finalmente internei o meu pai, pelo período de um mês (o máximo possível, nestas condições), numa instituição dedicada a doentes do foro mental, como no caso do meu pai, que sofre de uma demência degenerativa. Foi muito duro, mas sobre isso ou falarei de outra maneira ou não vale a pena estar aqui a desfiar mágoas. Entretanto aproveitei para procurar alternativas para quando este mês terminar (lares, cuidados continuados, por aí), mas estou a chegar à conclusão de que não vou conseguir ter o meu pai internado e manter o apoio domiciliário à minha mãe. Tudo isto me dá um nó enorme na cabeça, e uma sensação angustiante de que não há escapatória, não há caminho de saída. Entretanto amanhã vou fazer a cistoscopia de controlo e quando me lembro disso, my hearts skips a beat, sobretudo porque estes seis meses, ou grande parte deles, meteram muitas dúvidas, muitos exames, muitas células com atipia, muitos cenários desagradáveis. Mas ao contrário do que aconteceu há seis meses, desta vez, se calhar até por ter tido poucas oportunidades de pensar no assunto, estou mais descontraído e confiante. Caraças, tem de haver um certo alívio para esta coisa de o céu me estar a desabar em cima da cabeça, como dizia um certo chefe gaulês!