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acta est fabula
rosas
innersmile
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Mais um volume das memórias de Eugénio Lisboa, o IV do plano de cinco livros, o terceiro a ser publicado. O tempo que vai de 1977 a 1995 cobre o período que se segue à saída de Moçambique, as passagens mais ou menos breves por Joanesburgo e Estocolmo, e à prolongada estada do autor em Londres, onde foi conselheiro cultural da embaixada de Portugal.

É um volume mais desequilibrado do que os anteriores, dando bastante atenção aos anos iniciais, e despachando a segunda metade num estilo por vezes pouco mais do que telegráfico. O próprio autor tem disso consciência e refere-o várias vezes. Nos momentos bons, naqueles em que o autor se espraia pela(s) sua(s) Memória(s) com tempo e pormenor, vem ao de cima a escrita rica e desenvolta, o carácter mais reflexivo, o gosto pelas citações e pela pequena história, mas também o desassombro das opiniões e mesmo um certo gosto pela má-lingua.

boyhood
rosas
innersmile
Gostei muito de Boyhood, o filme que Richard Linklater fez ao longo de doze anos, filmando, sempre com o mesmo grupo de actores e com a mesma unidade narrativa, a história de um rapaz, da sua irmã, e da sua família, desde que Mason, o protagonista, tinha seis anos, em 2002, até à altura em que entrou para a universidade, em 2013.

É difícil dizer o que me impressionou mais no filme, mas acho que foi o facto de ele não ser sobre nada em especial, Linklater limita-se a filmar as cenas familiares, a maneira como as pessoas e as suas relações evoluem, como, apesar dessas evoluções, ou por causa delas, nós somos sempre mais ou menos os mesmos. E como nas nossas vidas não acontece nada, a não ser o tempo a passar, e o modo como o tempo vai esculpindo, ou se calhar deixando-se esculpir, pelas nossas relações com os outros, ou seja pelo amor.

E isso, que é tão fundamental e profundo, chega-nos pela via mais simples, com humor e leveza, com música e uma atenção aos detalhes do nosso quotidiano, que nos leva, várias vezes ao longo do filme, a pensar que estamos de facto a ver acontecer a vida como ela é, sem efeitos ou artifícios narrativos.

Outra coisa de que gostei bastante foi do risco que o filme correu, mais uma vez por apostar tanto no factor tempo. Ao filmar sempre os mesmos actores ao longo de um tão longo período de tempo, e para já não falar no risco de o projecto poder nunca se concretizar porque se há alguma coisa que define o tempo, sobretudo o futuro, é a sua contingência (tão certa como o seu devir), em cada momento temporal o filme como que se esgota todo nessa intangibilidade do futuro. Como estamos a ver um filme que já foi feito, ou seja passado, sabemos que a sua narrativa vai prosseguir até ao genérico final; mas sentimos, talvez porque nos consigamos identificar com ele, o desamparo das personagens em cada momento, porque sabemos o quão imponderável é o seu futuro (porque parecido com o nosso). E isso é fascinante, e assustador ao mesmo tempo, porque é isso que são as nossas vidas, todos os dias, dia a dia, ao longo dos anos que demora a correr o filme das nossas vidas.
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