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o caso sócrates
rosas
innersmile
1
Não sou um homem de fé ou de dogmas, nem sequer um gajo de fezadas. Acredito naquilo que, à minha razão, faz sentido. Mesmo que pareça improvável, se para mim faz sentido, acredito. Se não consigo entender, lamento muito mas não acredito, mesmo contra argumentos ou evidências.
Isto para justificar que relativamente ao caso José Sócrates, não tenho nenhuma convicção formada acerca de ele ser ou não realmente culpado dos crimes de que o acusam. Ok, pode ser que seja, ou o sistema judicial não teria caído em cima dele a toda a força; mas também, eh pá, ele gerou muitos ódios e dá a impressão de que o sistema judicial tem recursos afectos a um departamento qualquer tipo ‘vamos lá descobrir qualquer coisa para tramar o gajo’.
De modo que não tenho nenhuma fezada acerca do assunto. Não posso bater com a mão no peito e exclamar: cá para mim ele é inocente e não fez nada de mal. Mas também não posso erguer os punhos em fúria e vociferar: toma lá sacana, foste apanhado.

2
Apesar de não gostar de Sócrates quando ele chegou a primeiro-ministro, depressa me converti à personagem, sobretudo porque lhe reconhecia carisma, visão e tenacidade. E capacidade de decisão. E determinação para fazer as coisas acontecer. E habilidade para lidar com correlegionários e adversários. Também lhe reconheci alguns defeitos, uns quantos que me incomodavam bastante, mas não me apetece falar nisso, não vem, nesta hora, ao caso.

3
Há muito tempo que tenho uma opinião desfavorável da magistratura, apesar de ter grandes e bons amigos magistrados, quer judiciais quer do ministério público. Mas incomoda-me muito um certo justicialismo que investe a nossa magistratura de uma espécie de superioridade moral. Muitos deles chegaram à magistratura sem qualquer experiência de vida, sem mundo e sem leitura e comportam-se um pouco como os habitantes da caverna de Platão, achando que a vida real são as sombras que ela projecta nas salas de audiência.
Eu acho (ia dizer que sei, mas não, só acho) que os magistrados nunca perdoaram a Sócrates o facto de ele ter afrontado a classe. Talvez a gente já não se lembre bem, mas dizia-se que Sócrates tinha escolhido duas classes, a dos magistrados e a dos professores, para sacrificar os interesses instalados. E desconfio, mas sem ter a certeza, de que há ódios que o tempo não suaviza, só destila.

4
Sou de um tempo em que havia bom jornalismo em Portugal. E grandes jornalistas. Nos jornais, na TV e na rádio. Sou do tempo em que muitos jornais eram nacionalizados, e os outros eram propriedade de cooperativas ou outros grupos de jornalistas ou, de alguma maneira, de pessoas ligadas aos jornais. Aos poucos os meios de comunicação social começaram a passar para as mãos dos grupos económicos, e, depois, para as dos grandes grupos económicos, aqueles em que nunca sabemos bem quem é o patrão, é sempre uma sgps de uma sgps. A qualidade do jornalismo caiu a pique, muito porque os jornalistas passaram a ser mal pagos e precarizados; mas também porque os jornais, de forma dissimulada ou mesmo subliminar, servem as estratégias empresariais dos grupos que os detêm.

5
Relativamente ao que está a acontecer, confesso que não tenho grandes ideias ou convicções. Estou ainda perplexo, e até um pouco machucado. Principalmente porque tenho muita dificuldade em aceitar qualquer uma das seguintes alternativas conflituantes:
1ª, que Sócrates cometeu de facto os crimes de que é acusado, ou
2ª, que seja possível montar um ardil judicial destes só por vingança.

Mas uma coisa é certa: seja ou não culpado, o ponto é que o que se passou nestes dias foi um exercício de humilhação, puro e gratuito. Sempre seria tratando-se de qualquer cidadão, anónimo ou não. Mas foi-o qualificadamente tratando-se de um ex-primeiro-ministro, eleito por milhões de portugueses, que, só por o ter sido, merecia ser tratado com o maior respeito. Não por ele, mas pelo país que governou. Sócrates pode ser tratado como um criminoso que cometeu crimes económicos graves, alguns deles eventualmente quando exercia funções de Estado. Mas não pode ser tratado como um bandoleiro, um salteador de estradas. Porque nós, portugueses, podemos ter sido enganados por um ladrão de casaca, fino e artista, que nos enganou para dar o golpe. Mas não podemos passar pela figurinha de termos eleito um malandrete, um artolas que é detido na avenida e levado para a esquadra sob os apupos da massa ululante. Assim, da maneira como aconteceu, fomos todos, mesmo aqueles que rejubilaram com a cena, humilhados.

6
Só mais um ponto para dizer que continuo a gostar do Mário Soares. Admito que já possa ter o juízo turbado por causa da idade, mas quando está tudo tão cauteloso, a mexer com pinças, a fazer de conta que não vê o elefante na sala, ou a ser cínico e hipócrita, lava-nos o fígado um homem daquela idade poder ser desassombrado e dizer o que lhe vai na alma. E assim dando voz, digo eu, ao que irá na alma de tantos outros.
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