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oxiana 2/3
rosas
innersmile
1507-1

É caso para dizer que, no que respeita a A Estrada Para Oxiana, de Robert Byron, a fama vem de longe; há muito tempo que conhecia o livro, já li muito a seu respeito, faz parte do cânone da literatura de viagens, sendo o grande livro de referência de grandes escritores de viagens, como o Bruce Chatwin. Foi finalmente publicado em Portugal, na coleção de literatura de viagens da editora Tinta da China, com uma tradução impecável (a boa tradução é aquela que não se dá por ela) e uma introdução da jornalista Alexandra Lucas Coelho.

Publicado originalmente em 1937, relata uma viagem (feita em duas parte), em 1933 e 1934, que começou em Inglaterra, passou por Veneza e Trieste, e depois seguiu uma rota que atravessou a Palestina, no que seria hoje o estado de Israel, passando por Telavive e Jerusalém, a Síria, o Iraque, a Pérsia, hoje o Irão, o Afeganistão, o verdadeiro objectivo da sua viagem, e a Índia (em Peshawar, que hoje é no Paquistão), mas só de passagem, já no caminho de regresso.

Este livro de Robert Byron é muitas vezes considerado o fundador da moderna literatura de viagens, criando o padrão pelo qual se regeriam os travelogues de em diante. E trata-se de facto de um livro extraordinário, muito excitante e informativo, escrito com humor e com uma dose de fascínio muito grande, que nos contagia a nós leitores, e que evoca lugares encantatórios, como Persépolis ou Samarcanda. O sortilégio é imenso, até porque Byron segue rotas famosas e visita os locais onde a história da humanidade se foi escrevendo através de figuras como Alexandre o Grande ou Gengis Khan, ou de viajantes famosos como Marco Polo.

Como todos os clássicos, é um livro que nos diz muito acerca do tempo e das circunstâncias em que foi escrito, nomeadamente sobre o que era o colonialismo europeu, particularmente o inglês, nas primeiras décadas do século XX, mas que mantém intocável a sua contemporaneidade, nomeadamente dando-nos informação e contexto muito importantes para perceber o que se passa hoje no Médio Oriente, ou em países como o Irão e o Afganistão.

O objectivo de Byron quando planeou a sua viagem até às margens do rio Oxius (que todavia não chegou a visitar, politics obliged) era sobretudo de índole cultural, em especial no que diz respeito à arquitectura, que o livro regista sempre com rigor e meticulosidade, mas também com opiniões fortes e por vezes desconcertantes (a sua opinião em relação aos budas gigantes de Bamian, que os Talibans destruíram, é desconcertante).

Mas o que torna este livro inesquecível é a aventura humana, o apelo do desconhecido e do inexplorado, a evocação do passado, sim, mas um passado onde o facto tem o odor da lenda. E principalmente os encontros com os outros, sejam eles as autoridades locais ou simples pastores de passagem, os burocratas do Xá da Pérsia ou os intrépidos motoristas que o conduzem pelos mais remotos e improváveis caminhos.