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rosas
innersmile
Uma das razões porque gosto tanto de nadar é porque num determinado aspecto é como conduzir sozinho, uma prática de que eu gostava mas que agora me aborrece um pouco. Em ambos os casos temos de manter um nível de concentração razoável naquilo que estamos a fazer, mas uma boa parte do cérebro fica livre para reflectir. Mas como não nos podemos distrair da tarefa que estamos a executar, nunca nos podemos embrenhar nos nossos pensamentos ao ponto de nos deixarmos tomar completamente por eles. Ou seja, podemos reflectir profunda e livremente, mas só até certo ponto. De contrário, despistamo-nos ou engolimos um pirolito, com consequências desastrosas ou apenas incómodas e levemente humilhantes, conforme o caso.

Como nado duas ou três vezes por semana, durante pelo menos cinquenta minutos em cada sessão, tenho tempo de sobra para ocupar o espírito com as mais diversas coisas. Por vezes é tão monótono que chega a ser irritante, até fico ansioso para que aquilo acabe depressa, não porque esteja cansado fisicamente, mas porque já estou farto de não ter nada em que pensar. Em circunstâncias ideais, entretenho-me a visualizar mentalmente os movimentos que estou a fazer: é a actividade cerebral que mais ajuda a nadar, que permite melhorar a técnica e o desempenho, e que nos permite progredir sem dar pelo tempo e pela distância a passarem. Mas é muito mais difícil do que se poderia pensar: durante umas braçadas um tipo consegue manter-se focalizado naquilo mas a mente tem uma capacidade imensa para se distrair e divagar.

Muitas vezes, embora obviamente não durante o tempo todo que dura a sessão, penso em comida. Naquilo que vou comer a seguir: fatias de piza, pratos de pasta com molhos, hamburguers gourmet ou bifes da vazia, são normalmente estas as alternativas. Motivo-me a pensar em fatias de piza altas e fofas, muito quentinhas, a escorrer queijo, acompanhadas com goladas imensas de chá gelado. Houve uma fase, que agora tem sido mais rara, em que pensava em canções; como tenho facilidade em decorar as letras, ponho-me a cantar canções de fio a pavio. Tem a vantagem de, escolhendo a canção com o ritmo certo, nos ajudar a manter a cadência dos estilos. Mas esta prática precisa de treino, para conseguir encaixar os movimentos repetitivos e uma coisa não atrapalhar a outra (nunca experimentei nadar com música; a ideia parece sedutora, já vi pessoas a fazerem-no, mas tenho a impressão de que não é uma combinação de sucesso).

Ultimamente, tenho pensado muito na minha vida, no que está a acontecer à minha família, na enorme incerteza que o futuro próximo nos guarda, e como vai ser a adaptação a essas novas, e mais dolorosas e angustiantes, circunstâncias. Na última vez que fui nadar, foram cinquenta minutos de verdadeiro massacre mental, sempre a pensar no mesmo. É dificil chorar com os olhos dentro dos goggles, mas o contacto com a água fazia-me arder os olhos, por causa do muito que chorei (ou choraminguei, vá) nesse dia. Mas estava tão tenso e acelerado, que quase paradoxalmente os estilos me estavam a sair bem, e o corpo estava a sentir um verdadeiro prazer em nadar. Não sei se já me tinha ocorrido antes, mas tomei consciência de que nadar, pelo menos assim em curso livre como faço, sem professores ou treinadores ou companheiros de treino, para além de solitário, pode ser um exercício de profunda solidão.