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Revi ontem Fado Camané, o documentário realizado por Bruno de Almeida durante as sessões de gravação do disco Sempre de Mim, de 2008. Para além do próprio Camané, de José Mário Branco, da Manuela de Freitas e dos músicos (Carlos Manuel Proença, José Manuel Neto e Carlos Bica), é de destacar igualmente a presença no filme de António Pinheiro da Silva, músico, produtor e técnico de som, cujo nome está intimamente ligado à música popular portuguesa dos últimos 40 anos. Não tem ‘falas’ no filme, mas a sua simples presença, no filme como no estúdio, dá testemunho dessa importância.

Gostei muito do filme, mas a razão porque o fui rever, foi para levar a minha mãe, que é apreciadora de fado, fã do Camané, e a pessoa com quem eu aprendi a gostar de fado. Há aquelas ocasiões que são tão especiais que precisamos de as partilhar com alguém; por vezes, acontece-me só fazer sentido partilhar algumas dessas ocasiões com a minha mãe, porque só ela é capaz de perceber na perfeição porque é que determinadas coisas me tocam da maneira como tocam. Já me tem acontecido essas ocasiões serem irrepetíveis, por exemplo em concertos ao vivo, e eu arrepender-me de não a ter levado; por isso, quando vi o filme, há pouco mais de uma semana, tomei logo a decisão de o voltar a ver com ela.

Há dias que ando com uma coisa atravessada no peito, a precisar de escrever sobre ela, mas com um certo pudor de o fazer. Talvez esta seja a altura. Faz amanhã oito dias soube, por informação particular, que a situação clínica da minha mãe piorou muito. O hepato-carcinoma desenvolveu-se neste último ano de uma forma muito violenta: mais nódulos, muito grandes, alguns mesmo já a perfurarem a cápsula e a própria parede abdominal. Ela tem perdido muito peso, mas de resto ainda está assintomática, e eu hesito em dar-lhe esta notícia tão violenta. Amanhã vou falar com a médica dela para saber o que se pode fazer e definir um plano para lidar com a situação. Por outro lado o problema do meu pai tem-se agravado muito, e não demorará muito terá de ser internado, é impossível continuar a lidar com a demência em casa, sobretudo para a minha mãe, que passa noite seguidas em claro e está completamente exausta. Tudo isto me causa uma angústia tão grande que nem sou capaz de a encarar, quando começo a pensar no assunto começo logo a sentir-me asfixiado.

Mas a vida é um carrocel. Um dia depois, na sexta-feira, tive também a notícia de que a citologia de controlo que fiz no final do mês passado está limpa. As palavras mágicas são: ausência de células neoplásicas. Ao menos por esse lado, por enquanto, estou mais leve e descansado. Descubro, afinal, que o meu gato é também uma metáfora da vida: num momento desespera-me, põe a casa de pantanas, suja-me a cama, estraga as cortinas, rói tudo o que apanha; no momento seguinte deita-se no meu peito, dá-me uma mordidela de mimo nas mãos, e aninha-se a ronronar, deixando-me apaziguado.