October 28th, 2014

rosas

a verdade sobre o caso harry quebert

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Um tijolo de quase 700 páginas, da autoria de Joel Dicker, que li em praticamente um fim de semana e meio, de tal forma a sua leitura é compulsiva: uma trama policial, cheia de reviravoltas, uma história de livros e de escritores, um romance de amor impossível. Acresce uma estrutura narrativa bem engendrada, cheia de mudanças de registos e de saltos cronológicos, uma escrita simples, e, claro, um doseamento homeopático da informação que vai sendo transmitida e do suspense. Os pormenores, os detalhes, as pequenas piadas, ajudam a tornar a leitura muito divertida

Parece tudo de bom, mas não é, há coisas desagradáveis e mesmo irritantes neste livro. Uma delas é um tom muito fake: um escritor suiço, a escrever em francês, sobre uma pequena cidade da Nova Inglaterra norte-americana. Abundam os clichés, e nunca se cria uma coisa essencial neste tipo de livros, o ambiente (sirva de exemplo a Scania dos romances de Hening Mankell, que não vivem de outra coisa).

Depois a questão da literatura: mesmo evitando os spoilers, sempre se pode dizer que a estrutura narrativa do livro e o jogo que ela cria com o leitor e o próprio livro que este tem em mãos, nunca é subtil o suficiente para ser desafiante ou mesmo apenas intrigante. Além disso, o livro cola-se demasiado a grandes clássicos da literatura, ou melhor, aos lugares comuns da literatura que foram criados por esses clássicos. Basta um exemplo: N-o-l-a, a emular o famoso L-o-l-i-t-a.

Depois, não é um grande escritor quem quer, e não basta afirmá-lo para o ser. Quando o livro, sobretudo na parte do enredo amoroso, quer fazer como os grandes livros de amores loucos e febris, torna-se quase risível de tão lisinho.
O que irrita no livro é sobretudo esta ambição declarada e assumida de ser um grande romance. Até porque quando ele é bom, é quando se limita a ser um policial bem esgalhado, razoavelmente escrito, e bem divertido.