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getúlio, fado camané
rosas
innersmile
Para compensar os fins de semana sem cinema, neste houve dois belos filmes. Logo na sexta, para abrir as hostilidades do fim de semana, fui ver Getúlio, do brasileiro João Jardim. O filme encena os últimos dias da vida do presidente do Brasil, alternando entre o relato, de pendor um pouco documentarista, do tumulto político que marcou esses dezanove dias que decorreram entre o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, e cuja responsabilidade foi bater à porta do presidente e da sua entourage, e o fatídico dia do suicídio; e um registo intimista, psicológico, sombrio, que tenta retratar o que foi o estado de espírito do homem que era presidente da república, e as razões de ordem anímica que o levaram a disparar sobre o coração um tiro de revólver.

Tony Ramos tem um desempenho extraordinário que aposta, não numa recuperação de gestos ou registos, mas sobretudo na criação de um personagem, com as suas grandezas e as suas misérias, dando um rosto ao mistério silencioso e infernal que leva uma pessoa a tirar a sua própria vida.

Não sendo um filme perfeito, é no entanto fundamental para quem se interessa pelo Brasil e sua história, e principalmente por uma das suas maiores e mais fascinantes figuras, um presidente que ainda hoje é dos mais acarinhados pela memória histórica dos brasileiros. Além disso é um excelente complemento da leitura de Agosto, o romance de Rubem Fonseca, especialmente porque permite perceber o quão rigorosa foi a reconstrução histórica do livro e a mestria do autor na forma como ela é entretecida com a narrativa ficcional.

O outro filme que vi no fim de semana foi Fado Camané, um documentário realizado por Bruno de Almeida. Adorei o filme, achei notável a maneira como gere os escassos recursos de que dispõe para construir um retrato denso e profundo de uma das coisas mais raras e difíceis de captar: a possibilidade de ver acontecer perante os nossos olhos o milagre da criação artistica.

Quase integralmente passado em ambiente de estúdio, durante as gravações do disco Sempre de Mim, em 2008, e com um reduzido número de intervenientes, os músicos, os produtores, os técnicos de som, ainda assim, ou talvez mesmo por isso, consegue captar o que é essencial; e nada mais que o essencial, pelo que a nós, espectadores, apenas resta submergirmos também nós nessa dinâmica, nessa energia, e participarmos, quase como se estivéssemos presentes na sala, da alegria espantosa que é ver nascer a música excepcional.

Os grandes protagonistas do filme são o próprio Camané, é claro, mas também José Mário Branco, que tem sido o produtor de praticamente toda a discografia do fadista. Vê-los a trabalhar juntos em estúdio, ajuda a perceber, não exactamente o porquê, mas principalmente como funciona um dos casos mais felizes da música popular portuguesa. E, volto a repetir, podermos, nós os espectadores anónimos, assistir a isso é uma oportunidade imperdível.