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BEIJO NA BOCA


para o Sr. Eduardo Caxa


Abril de 2004, aeroporto internacional de Guarulhos, São Paulo. Estou em escala, vindo de Iguaçu e em trânsito para o Rio. O voo atrasou e perdi a ligação, agora tenho quase quatro horas de espera. Passeei pelo aeroporto, mas com as restrições de segurança do pós-11 de setembro, há muitas limitações de circulação. Já comi, já comprei os jornais e as revistas, já li as primeiras quarenta páginas de um thriller de um autor best-seller, passei pelas brasas, e agora estou a olhar para o rapaz sentado à minha frente, cerca de trinta anos, vestido de modo desportivo, mas em versão ‘jovem perito em tecnologias de informação’: muito trabalho e elevado rendimento, roupas casuais mas marcas topo de gama. O rapaz lê, como seria de esperar, um livro de ficção e fantasia, um tijolo volumoso com uma mancha de texto cerrada e tipo de letra minúsculo. Está concentradíssimo na leitura, mas de vez em quando, curiosos, os olhos desviam-se da página na minha direcção. Calculo o momento adequado, e de uma das vezes em que me olha, esboço o mais subtil dos sorrisos. A reacção demora apenas o tempo de confirmar o meu interesse, e retribui o sorriso. Pergunto-lhe de caras: tomamos um café? Ele acede, levantamo-nos e ainda antes de apertarmos as mãos, ele pergunta se isso que eu falei é português de Portugal. Respondo que sim, apresentamo-nos, e eu manifesto a minha surpresa por ele ter reconhecido o sotaque português, muitas vezes confundem-no com italiano ou espanhol. Diz-me que estudou seis meses em Lisboa, numa das melhores universidades técnicas, por conta da multinacional dinamarquesa onde trabalha, em IT claro, desde os dezoito anos. Já num dos cafés do aeroporto, pedimos um duplo expresso para ele, que eu, por esta altura, já só consigo beber infusões de ervas. Sentamo-nos a conversar, falamos de tudo, e contamo-nos um ao outro, mas sem nunca entrarmos em confidências ou intimidades. Com o evoluir da conversa, a minha mão toca na sua vezes demais para ser uma casualidade, ele não a retira, e, aos poucos, os seus dedos começam a demorar-se nos meus. Confirma num dos ecrãs das partidas que se iniciou o embarque do seu voo, destinado a Lisboa onde apanhará ligação para Copenhaga. Temos tempo para, tranquilamente, trocarmos contactos, e quando nos despedimos junto à porta de embarque, a sua mão fica presa na minha, num sorriso. No momento em que separamos as mãos, ensaia um abraço tímido, e os seus lábios tocam nos meus, num beijo mais aflorado do que consumado.

Abril de 2014, Parque das Nações, Lisboa. É a primeira vez que nos vamos encontrar, depois de dez anos a trocar mensagens através de todos os meios com que a tecnologia foi evoluindo. Nestes dez anos eu fui três vezes ao Brasil, mas da única vez que passei apenas algumas horas, pouco mais do que um dia, em São Paulo, ele estava mais uma vez na Europa. Revezes vários, daqueles sem importância ou dramatismo, sempre o impediram de parar em Lisboa. Agora, finalmente, conseguiu encaixar um fim de semana na cidade, em trânsito para mais uma ida à Dinamarca, onde já participa nas reuniões de topo da multinacional. Ao longo do tempo, a nossa ligação epistolar, se o adjectivo ainda é válido na era da comunicação electrónica, foi conhecendo muitas alterações, quer em matiz quer em intensidade. Houve ocasiões em que nos comunicámos mais frequentemente, por vezes com trocas infindáveis de mensagens de correio ao longo de poucas horas, e outras em que passámos semanas sem dar sinal um ao outro. Tempos houve em que éramos quase oficialmente namorados, e outros em que a nossa ligação afectiva era ténue, praticamente inexistente. Aliás, ao longo destes dez anos ele teve vários relacionamentos, uns mais sérios e duradouros, outros leves e fugazes como uma noite de festa, enquanto eu, cada vez mais, me acomodei à ideia de que não tenho espírito de acasalamento. Mas sempre estivemos juntos, ainda que da maneira vaga e incerta que o ciberespaço virtual veio realçar nos relacionamentos à distância, entre pessoas que mal se conhecem fisicamente, ou nem se conhecem de todo. Ao longo dos últimos dez anos, ele foi uma das raras pessoas que me aliviava o sentimento de estar só no mundo. Agora, da esquina do centro comercial surge o táxi que o transporta e, finalmente, vamo-nos reencontrar. A porta abre-se e salta um homem maduro mas de aparência jovial, alto, quase tanto como eu, vestido com gosto e simplicidade, um sorriso aberto e tímido a brilhar na barba cerrada. Abre os braços para me estreitar num abraço. Pergunto-me se, como no último momento em que estivemos juntos, me vai dar um beijo na boca.
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