?

Log in

No account? Create an account

novelos
rosas
innersmile
“No baú de tampa abaulada estavam os objectos quebráveis, envoltos em coisas inquebráveis. Pratos, copos, cântaros, vasos, envoltos em jornais e panos de cozinha ou toalhas de banho, paninhos de renda e mantas em tricô, naperones bordados. O segundo baú tinha sobretudo lençóis, toalhas de mesa (uma dela de croché), colchas, fronhas e alguns objectos frágeis, grandes e lisos, como a pintura emoldurada pintada por Marian, irmã da avó e da tia Charlie, que morrera jovem.”

- Alice Munro, A VISTA DE CASTLE ROCK (Relógio d’Água)


Há palavras e expressões que funcionam como verdadeiros gatilhos da memória: não consigo ler as palavras ‘naperon’ ou ‘croché’, sem me lembrar imediatamente da minha avó. Sempre, toda a vida, a sua e a minha, recordo a minha avó a fazer croché, novelos de linha imaculadamente branca (marca Âncora?), um conjunto de agulhas de metal prateado de diferentes tamanhos (no corpo cilíndrico da agulha havia um pequeno segmento achatado, onde estava gravado o número da agulha). Na minha casa, ou seja na casa do meus pais, nas temporadas que a minha avó passava connosco, o seu lugar era numa cadeira da sala de jantar, alta e de espaldar direito, de costas para a janela, as suas coisas em cima da mesa: o saco das linhas, as caixas dos óculos, o correio (o que recebera ou o bloco de papel de carta e os envelopes, para escrever), revistas e jornais. Passava assim o dia, sentada naquele que era considerado o seu lugar.

Recordo-me sempre da minha avó com saudade, certamente, mas sobretudo com alegria. O lugar da minha avó na minha vida (como, tenho a certeza, na de todos os seus netos) sempre foi um lugar feliz, feitos de conversas, de miminhos e de petiscos feitos de surpresa, de cartas escritas com uma nota de vinte escudos escondida no papel dobrado. De conversas, como disse, que tanto podiam ser pessoais como de comentários genéricos; a minha avó conhecia os nossos gostos musicais e acompanhava-os, cortava das revistas os artigos que calculava serem do nosso interesse e mandava-os pelo correio, quando não estava ao pé de nós.

Mas ler o trecho acima e lembrar-me do croché da minha avó, hoje causou-se angústia. Ando novamente a atravessar uma época assombrada por um intenso sentimento de perda, causado, sobretudo, pela situação familiar: a doença do meu pai agravou-se muito nas últimas semanas, quase de dia para dia, as cuidadoras não dão conta, e a minha mãe desgasta-se a tomar conta dele, principalmente nas noites em claro em que ele, agitadíssimo e completamente irracional, não dorme nem deixa dormir. Estou sempre a sentir que estamos a chegar a um momento em que vão ter de ser tomadas decisões drásticas, tristes e definitivas. E as memórias, as lembranças e as recordações, que de forma tão agradável são muitas vezes o principal combustível que me anima, parecem uma prisão terrível, angustiante e claustrofóbica.