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Trouxe esta mala de casa dos meus pais, no passado fim de semana. É uma maleta pequena, de cartonado rijo, que conheço há mais de quarenta anos, já desde os tempos da casa de Nampula. Alguém amigo da família a trouxe de Moçambique, cheia de objectos domésticos provavelmente, e a entregou aos meus pais, já em Portugal. Sempre gostei dela, e por isso estava no meu antigo quarto, guardada debaixo do roupeiro, com sacos plásticos vazios de livrarias e lojas de discos estrangeiras.

Passei uma vistoria rápida à minha antiga secretária, que agora serve de mesa para passar a ferro, e enchi a mala com duas pastas antigas de desenho, feitas de cartolina e que fechavam com elásticos nos cantos, e mais umas pastitas daquelas de guardar papeis em formato A4. Tudo cheio de cadernos e sebentas e papeis dactilografados com coisas que eu escrevi desde finais dos anos 70 até inícios dos anos 90, por volta de 1992. Muitos poemas (mas muitos parece pouco, são mesmo imensos), muitos contos, uma ou outra tentativa de novela. Escrevia quase quotidianamente, e de tempos a tempos organizava os escritos em volumes dactilografados, projectos de livros (até um plano editorial de uma editora que criei, um dia destes mostro-o aqui, dedicado aos meus amigos da Index ebooks).

Por volta de 1991 deram-se dois acontecimentos: comecei a trabalhar na minha actual profissão, e comecei a escrever diários, já em computador, e que estão todos, mais o que escrevi no livejournal, num ficheiro word que, em mancha compacta, sem espaços, e letra de tamanho 8, chega próximo das mil e quinhentas páginas. A partir daí, as tentativas de escrita literária foram-se diluindo nos diários, e praticamente deixei de escrever contos e poemas. Por volta de 2002, até 2007, voltei a escrever muitos contos e poemas, em parte porque atravessei um mau período profissional, que me deixava muito tempo livre, mas também porque me sentia muito incentivado pelo Saint-Clair.

Não sei bem porque é que decidi trazer esses cadernos e papeis todos para minha casa. Em parte para ter qualquer coisa para guardar na mala, que agora está no hall de entrada, junto ao cabide de pé, como se alguém tivesse a mala pronta para ir embora. Não foi para os salvar do fogo, seguramente; quando muito, seria trocar um fogo por outro.


(Nampula, 1970)