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liberation
rosas
innersmile
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Liberation é o terceiro e último volume dos diários de Christopher Isherwood, um total de quase três mil páginas, cobrindo o período que vai de 1939, o ano em que CI chegou aos Estados Unidos, e 1983, três anos antes da sua morte, aos 82 anos de idade. Fica-me a faltar o livro Lost Years, que cobre um período de meia dúzia de anos, ali na passagem dos anos 40 para os 50. Li o primeiro volume em 2001, no verão em que comecei a escrever aqui no livejournal, e o segundo em 2012. Foi uma aventura fascinante acompanhar assim a vida de um escritor de que gosto imenso, e que me tornou se calhar mais “amigo” do homem do que propriamente mais admirador do escritor, que já era e continuo a ser.

Este derradeiro volume dos diários devolve-nos o processo de envelhecimento de Isherwood, marcado por duas lutas ferozes: uma pela aceitação da morte, de acordo com os ensinamentos da sua religião e do seu swami; a outra, de não conformação com a degradação própria da senilidade, e que Isherwood compreendeu apenas poder ser travada através do seu compromisso com a literatura e com a escrita. Nas páginas finais do livro, quando a vida do autor era já marcada pela doença e pelas dificuldades e padecimentos próprios da idade, Isherwood continuava a ter ideias e projectos de novos livros, e a recriminar-se por ceder àquilo que chamava a preguiça da velhice, em vez de se sentar a trabalhar, para utilizar a sua própria expressão.

Liberation permite-nos ainda acompanhar o processo de escrita de alguns dos livros fundamentais do autor, nomeadamente de Christopher And His Kind e de My Guru And His Disciple, bem como a sua actividade como ícone do movimento gay, não só porque era, à época, das raras figuras públicas assumidas, como tinha uma relação afectiva estável que era vivida de forma aberta e sem subterfúgios.

Para além disso, há sempre doses razoáveis de gossip; Isherwood conviveu - e dormiu, no sentido bíblico do termo - com alguns dos maiores vultos da cultura, da música como das artes plásticas, do ballet (tinha uma especial predilecção por jovens bailarinos, fortes e bonitos) como do cinema (muitos aspirantes a actores passaram pela sua casa, para além das maiores estrelas de Hollywood), além, claro, de alguns dos grandes escritores do século (Auden e Forster foram seus amigos pessoais durante toda a vida).

Mais o que mais impressiona neste diários, é uma franqueza implacável que começa sempre pelo olhar dirigido a si próprio (e à qual apenas escapa, com bonomia, Don Bachardy, e apenas neste terceiro volume), uma escrita sempre perfeita e elegante, e, finalmente, uma das mais intensas e comoventes histórias de amor.