September 8th, 2014

rosas

e agora? lembra-me

Fui no fim de semana ver o filme E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, um documentário feito com o pretexto narrativo de manter um registo de um ano de tratamentos experimentais contra o vírus da hepatite C.

Tudo no filme é um assombro. A começar pela capacidade que ele tem de ser muito simples, por vezes quase literal, e no entanto ser profundo e de uma complexidade que continuamente escapa aos nossos dedos de espectadores insensíveis.

Acho que o filme é, antes de tudo o mais, uma intensa história de amor. Que, na maior parte do tempo, se limita a ser contemplada; Joaquim Pinto fala dela usando para a voz off o mesmo tom que acompanha todo o restante filme, seja o seu percurso cinematográfico, a progressão dos tratamentos ou os trabalhos da vida no campo. No entanto, apesar disso, quando o filme se foca na relação entre si e Nuno, parece que Joaquim prefere sempre olhar a explicar, como se a intensidade do olhar pudesse de alguma maneira descortinar aquilo que é importante, o essencial.

O filme é tecnicamente perfeito, e isso é muito importante para o prazer do seu visionamento. O som, a imagem, são de uma definição e uma subtileza poderosas, daquelas coisas capazes de nos causar sindrome de Stendhal.

A narrativa é uma malha que se vai tecendo sempre ao longo do filme, abrindo caminhos e atando laços, estendendo e ligando, convocando a memória, mas progredindo sempre, como uma viagem na estrada mesmo que para um destino implacável. Quase no final, o filme detem-se sobre uma passagem de Santo Agostinho sobre a imponderabilidade do tempo: o tempo nasce do futuro, encontra-nos no presente e dirige-se para o passado; ou seja, nasce do que ainda não existe e dirige-se para o que já deixou de existir. O filme de Joaquim Pinto é, de certa forma, um manual de sobrevivência para aprender a viver com isso.

Há dois aspectos que me tocaram muito pessoalmente no filme. O primeiro é a experiência da doença, da doença grave em particular, daquela que obriga a tratamentos que são quase tão destruidores quanto a própria doença, e de como a arte, ou será melhor dizer a experiência criativa, nos pode ajudar a lidar com o assunto. Quando se filma sobre a doença, ou se escreve sobre ela, não é tanto para ajudar a ‘to cope’ (tem de ir em inglês, não me lembro de expressão portuguesa mais adequada), mas principalmente a tentar perceber que coisa é essa da vida tocada pela doença e pela sua fatalidade, como é que o mundo se salva quando parece que nos afogamos.

O outro aspecto tem a ver com a doença em concreto que é abordada no filme. A minha mãe é portadora de hepatite C crónica, que já evoluiu para cirrose e para hepato-carcinoma. Nos anos 90, durante muitos anos que não consigo precisar agora, fez tratamentos experimentais com interferão, a droga que é referida no filme. É um tratamento devastador. A minha mãe dava a si própria as injecções na barriga, à noite, depois tomava um analgésico e antipirético e ia-se deitar, porque já sabia que poucas horas depois a droga começava a produzir os seus efeitos tóxicos. Na manhã seguinte, levantava-se para ir trabalhar. Fez isto anos, mas o facto é que a evolução da doença foi muito retardada, e houve até alturas em que ficou estável.

Em janeiro de 2006 houve nova tentativa de fazer tratamento, desta vez extactamente o mesmo que é abordado no filme, a associação do interferão com a ribavirina. Ao fim de duas ou três semanas não resistiu e entrou num processo de degradação tão grande, que acabou numa sepsis, uma infecção generalizada que provoca a falência das funções vitais e é quase sempre fatal. A minha mãe sobreviveu, como aliás recuperou de dois outros episódios de septicémia. Foi muito intenso ver no ecrã tratados, e de forma tão inteligente e sensível, problemas e assuntos que nos tocam e tocaram de forma tão próxima.