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MR MOM
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MR. MOM

Tinha terminado o último ciclo de quimioterapia há poucos dias e iria começar em breve a ronda de exames para avaliação do resultado dos tratamentos. Era domingo, e Rose e Helen propuseram-lhe irem os três ao cinema, ver um filme que passava numa sala quase no final de Oxford Street, perto da esquina com Tottenham Court Road. Essa sala fechou pouco tempo depois, para dar lugar a uma mega-loja de discos que, entretanto, também já fechou.

Apesar de ser já o mês de junho, vestia o sobretudo pardo comprado em segunda mão na feira de Portobello, e trazia um boné para lhe proteger a cabeça totalmente calva. Enquanto atravessava a rua junto à estação de comboios de Euston para a paragem dos autocarros destinados ao centro, a mãe ficou à janela a vê-lo, caminhando titubeante com os braços enfiados nos das duas amigas.

Antes do filme começar, foram os três a um restaurante McDonalds que havia mesmo ao lado do cinema. Fizeram os pedidos ao balcão e desceram para a sala da cave. Ele tinha pedido um batido de baunilha. Naquela fase o seu apetite estava reduzido a zero. O peso descera abaixo dos cinquenta quilos, e sentia-se tão fraco que parecia quase incapaz de organizar o raciocínio. Além disso tinha começado a cair na rua, sobretudo quando descia dos autocarros, as pernas simplesmente iam abaixo, os joelhos dobravam-se e estatelava-se no solo como uma estrutura de ferro que entrasse em colapso e desabasse lentamente. Tirando a comida que a mãe lhe fazia em casa, um batido era tudo o que se sentia capaz de ingerir.

Ao fim de dois ou três sorvos do batido pela palhinha, sentiu a náusea a crescer, e o vómito a subir pelo esófago. Segurou a boca com a mão e levantou-se, cambaleante, em direcção à casa de banho. A pressa de chegar aos lavabos tornava ainda mais inseguras as suas passadas. Helen levantou-se atrás dele, e passou-lhe o braço pelas costas, para o amparar. Ainda antes de conseguir entrar nas cabines dos sanitários, na zona dos lavatórios, não conseguiu conter mais o vómito e tirou a mão da boca, derramando-o pelo chão e pela bacia de lavar as mãos. Rose foi ao piso de cima chamar uma empregada de limpeza. Ouviu-as chegar, quando descansava encostado à parede da casa de banho junto a uma das sanitas. A amiga explicava à empregada do restaurante que ele estava doente, a fazer quimioterapia, que não era nada relacionado com álcool ou com drogas.

Apesar do sucedido, conseguiu acalmar-se e foram para o cinema, ver o filme Mr Mom, uma comédia com a Teri Garr e o Michael Keaton. Nessa altura ainda se podia fumar nas salas de cinema da cidade, e ele, apesar da agonia, fumou um cigarro. No intervalo foi à casa de banho do cinema para urinar. Quando a urina começou a correr, vinha escura de sangue e carregada de coágulos, finos e encurvados como as aparas de um lápis acabado de afiar, que rodopiavam e desapareciam pelo ralo do urinol. Apanhou um susto tão grande que nem lhe pareceu real. Terminou de urinar e voltou para a sala de cinema, sem dizer nada às amigas. Durante todo o tempo que durou a projecção do filme não conseguiu concentrar-se, sempre a pensar no sangue que tinha saído com a urina.

Quando regressou a casa foi de imediato à casa de banho, com a vaga e irracional esperança de que tudo não tivesse passado de uma alucinação terrível. Mas não, a sua urina continuava carregada de sangue. Chamou a mãe, e mostrou-lhe a sanita manchada e cheia da urina ensanguentada. Helen e Rose estavam na sala, a beber chá, e ele e a mãe foram para o quarto. Começou a chorar, dizendo à mãe que isto era o fim, e que de qualquer maneira estava tão cansado que não conseguia resistir mais tempo. Achava que ia morrer, e, pela primeira vez, sentia que queria morrer. Pediu à mãe para, no caso de morrer, não o levar de volta para casa, para mandar incinerar o corpo e deixá-lo depositado no cemitério que ficava um pouco acima da rua, em direcção a Camden, junto à igreja católica onde costumavam ir rezar, durante os curtos e breves passeios que davam ao final da tarde, quando ele não estava internado.

A mãe tranquilizou-o, deixou-o deitado na cama e veio para a sala, explicar às amigas o que se estava a passar. Helen telefonou para o hospital, para a enfermaria onde ele ficava internado para fazer os tratamentos de quimioterapia. Explicou o que se estava a passar à enfermeira de serviço que depois foi chamar um médico. Passado algum tempo, ligaram de volta do hospital, a pedir para ele comparecer, na manhã seguinte, bem cedo, para uma consulta.
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os diários de isherwood
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innersmile
Comprei o ebook de Liberation, o terceiro e último volume dos diários de Christopher Isherwood, que cobre o período de 1970 a 1983. E na mesma sessão de internet em que fiz a compra, abri o leitor de kindles do site da Amazon e comecei a lê-lo. Já li o prefácio do Edmund White, que é perfeito: White enuncia exactamente as razões pelas quais os diários de Isherwood são fascinantes, e como através deles ficamos a admirar (ele não usa a expressão ‘amar’ mas teria inteiro cabimento) a personalidade, ou melhor: a própria pessoa que foi Christopher Isherwood.

Já andava há muitos meses com vontade de ler este livro. Este ano já li um outro clássico do autor, Christopher And His Kind. As leituras dos dois anteriores volumes dos diários foram momentos muito importantes, na minha vida de leitor de livros e até de escritor de diários online; o primeiro foi em 2001, no verão em que comecei a escrever o innersmile, e o segundo há dois anos, no verão de 2012. Sempre uma leitura de verão, que as cerca de mil páginas de cada um dos volumes exigem os vagares de agosto.

Se a leitura de Liberation for tão compensadora como foram as de Diaries (1939-1960) e de The Sixties (1960-1969) esperam-me algumas semanas de nirvana literário, e muitas citações aqui para o innersmile.

pérolas a porcos
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innersmile
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Conheci as tiras e as personagens de Pérolas a Porcos através da Margarida, grande entusiasta dos desenhos Stephan Pastis, e sua honorária divulgadora. Confesso que a princípio me incomodava um pouco a agressividade do humor, mas depois torna-se absolutamente viciante.

A ironia, o sarcasmo, mas sobretudo a falta de correcção política, que põe completamente a nú as nossas idiossincrasias mais secretas, mas com um humor tão acutilante que não podemos deixar de achar graça, mesmo quando ficamos um pouco embaraçados por nos identificarmos com a desadequação da coisa.

Outro aspecto que acho brilhante, e igualmente muito divertido, é uma espécie de meta-quadrinhos, que é quando o Stephan Pastis goza com a própria banda desenhada, com a banda desenhada no seu todo ou com outros personagens de outras tiras, ou mesmo com ele próprio, enquanto criador e desenhador.

Há uma referênciação forte das Pérolas a Porcos à banda desenhada de Calvin & Hobbes, de Bill Watterson. Não só porque Pastis cita, e por vezes goza declarada e descaradamente, com os bonecos de Watterson, mas porque se percebe que há ali uma espécie de relação de filiação. Ao ponto de, recentemente, Watterson ter saído da invisibilidade a que se remeteu desde pôs fim à sua famosa banda desenhada, para desenhar umas pranchas das Pérolas.