?

Log in

No account? Create an account

o pássaro arcaico
rosas
innersmile
unnamed

O Eduardo Carbone, um dos amigos que faz do Brasil uma das minhas amadas pátrias da língua portuguesa (e talvez por causa desse amor a polémica do acordo ortográfico nunca me comoveu), publicou um livro de versos, com o título desde logo admirável de O Pássaro Arcaico.

O Edu é meu amigo há muitos anos, e foi o Saint-Clair que nos juntou, achava uma inevitabilidade sermos amigos. Já conhecia pelo menos um poema do Edu, mas já não me recordo se foi o Saint ou o próprio Edu que mo deu a conhecer.

Agora este livro, que o Eduardo generosamente me enviou, releva uma poesia muito burilada, a palavra trabalhada quase como se fosse uma pedra dura, e nesse aspecto fez-me lembrar a poesia do grande mestre João Cabral de Melo Neto. Mas sendo tão trabalhados pela razão, não são versos cerebrais, frios, antes pelo contrário, têm uma pungência (ou seria lirismo a palavra adequada?) rutilante, de tão límpida e nítida.

Escolhi, para guardar aqui, este poema.


FECHAR-SE

Fechar-se
Como se ao chão
Esperasse cair
O último fragmento
Da explosão

Pequeno
Ínfimo grão
De poeira
Silêncio
Ou surdez?

Fechar-se
De tal maneira
Concluído
No instante
Da seminal

Nitidez
E sentir-se
Um ponto de
Nuclear pureza
Sozinha

Acolher
O grito nas coisas
O brilho da lucidez
No sentido insone
Da vida.


- Eduardo Carbone, O PÁSSARO ARCAICO