July 31st, 2014

rosas

os budas ditosos

8542112

Excelente. João Ubaldo consegue fazer de cada parágrafo, de cada frase, quase de cada palavra, uma arma de arremesso político contra todos os tabus morais com que embrulhamos o sexo para domesticar a sua natureza selvagem, que, deixada à solta, faria de nós seres libertinos e incontroláveis. A sagrada trindade das ditaduras conservadoras do século passado, Deus, Pátria e Família, sofre tiro à peça e sai arrasada.

E como seria de esperar no autor, fá-lo (trocadilho não intencional) com muito humor, com ironia, com subtileza (sim, muita subtileza, mau grado o carácter explícito e quase pornográfico do texto), socorrendo-se de uma narrativa aparentemente desenfreada mas com uma arquitectura perfeita, e da linguagem barroca que era já uma das imagens de marca de Viva O Povo Brasileiro, o outro livro de JUR que eu tinha lido.

E com uma notável eficácia romanesca: é espantoso o número de pessoas (a avaliar, por exemplo, por alguns comentários no goodreads) que acredita ou admite a veracidade do dispositivo narrativo criado (um relato oral que o autor recebeu e se limitou a transcrever) e da sua admirável personagem/narradora.

Lembro-me de João Ubaldo viver em Portugal, por causa das crónicas que publicava em O Jornal. Viva O Povo Brasileiro, uma recomendação do meu mestre Saint-Clair, é uma obra-prima da literatura em língua portuguesa contemporânea, um dos melhores livros que li. Quando faleceu, poucas semanas atrás, ficou-me a faltar uma evocação aqui. Decidi que era melhor trocá-la pela leitura deste livro, que eu há tanto tempo planeava.