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ricardo ribeiro, paulo soares e luís alcoforado
rosas
innersmile
Fui ontem ao anfiteatro ao ar livre da Quinta das Lágrimas para um concerto integrado na edição deste ano do festival de artes: fado de Lisboa e fado de Coimbra, juntos e ao vivo. O que me levou ao concerto foi a oportunidade de assistir ao vivo ao fadista Ricardo Ribeiro, e foi ainda melhor do que eu estava à espera. Tudo em RR é excelente: a voz, soberba, rouca e doce ao mesmo tempo, a maneira de cantar, com fugas para os cantos árabe e gitano, a inscrição numa determinada tradição do fado, mas também a simplicidade, a maneira de estar em palco, a delicadeza e a humildade. Foi acompanhado por Pedro de Castro, em guitarra portuguesa, Jaime Santos, em viola de fado, e Francisco Gaspar em viola baixo. Infelizmente, devido ao formato do concerto, foi uma prestação curta, eu pelo menos ficava ali toda a noite a ouvi-lo. Nomeadamente as explicações que ia dando entre as canções, brevíssimas e úteis ‘aulas’ sobre o fado tradicional de Lisboa.

Na segunda parte do concerto, o fado de Coimbra com o Paulo Soares, um mestre da guitarra na afinação coimbrã, e ainda José Rabaça, também na guitarra, Rui Poço Ferreira, viola, e o cantor Luis Alcoforado. Prefiro as guitarradas à voz na canção de Coimbra, a maneira de cantar não me encanta. Mas foi uma bela apresentação, que incluíu justíssima homenagem a Francisco Martins, um dos grandes executantes e compositores para a guitarra de Coimbra, falecido este fim de semana passado.

No final do concerto, os músicos reuniram-se todos em palco, para dois temas de Coimbra, divididos, em termos de voz, por Luis Alcoforado e Ricardo Ribeiro. Um aspecto que não me passou despercebido: durante a apresentação do grupo de Coimbra, o Ricardo Ribeiro puxou uma cadeirinha e esteve sentado, atrás do público, num ponto lateral do relvado, a assistir e a aplaudir; esta disponibilidade para música dos outros, revela humildade mas sobretudo um grande amor e uma grande entrega à música.


À margem do concerto: já em edições anteriores do festival, não sei se já tinha comentado aqui, eu reparei que mesmo por cima do palco está a constelação da Ursa Maior, que vai rodando muito lentamente ao longo da noite. É incrível: passam anos, as nossas vidas alteram-se, acontecem-nos coisas boas e coisas más, há guerras e crises financeiras, nascem e morrem pessoas, e o céu lá está, no seu curso, com suas constelações, insensível às grandezas e misérias cá da terra. Nestes dias de fim de julho, é altura da Ursa Maior estar ali, naquele quadrante do firmamento, ano sim ano sim, indiferente à disponibilidade de quem, cá em baixo, se prontifica a olhá-la.
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