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íntimo ofício + bifes mal passados
rosas
innersmile
Um fim de semana muito tranquilo. Fui nadar no sábado e no domingo, estive com os amigos do costume no sábado, estive de esplanada, no domingo à tarde estive no jardim a ler, o resto do tempo foi no sofá a ler. No sábado terminei a leitura de um livro e no domingo de outro.

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O Íntimo Ofício, da autoria de Z.A Feitosa, foi-me oferecido pelo Edu Caxa quando ele cá esteve em abril, e tem estado aqui à espera de oportunidade. Foi agora, e ainda bem. O livro é uma memória de infância e adolescência de um rapaz, cujo crescimento é marcado pelo despertar da sexualidade, e pelo conflito entre a heteronormatividade social e familiar e a pulsão do desejo homossexual. Passa-se no meio rural, numa cidade pequena, fortemente marcada pela religião, e a linguagem é um festim de termos populares e do jargão normalmente usado na juventude ligado ao sexo.

Gostei imenso do livro, divertiu-me e comoveu-me (mais a primeira do que a segunda, confesso). A narrativa tem lugar no estado da Paraíba, e o ambiente fez-me muito lembrar o universo dos livros de Jorge Amado e das telenovelas feitas a partir da sua obra, como Gabriela, ao mesmo tempo que continha muitos cruzamentos para o universo africano onde vivi a minha infância, decorredo num tempo que foi mais ou menos o meu, sendo o autor do livro dez anos mais velho do que eu.

Um dos aspectos mais fascinantes deste livro é nunca conseguirmos perceber inteiramente o que é que nele é ficção, e o que é que são memórias pessoais do autor. Não tenho informação suficiente para avaliar, mas muitas vezes pareceu-me ser uma espécie de roman à clef, de tal maneira são tão íntimas e verdadeiras algumas das suas passagens, apresentando-se, de toda a forma, como um falso livro de memórias. Seja como for, até pela circunstância temporal, e eventualmente geográfica, não tenho muitas dúvidas que estas aventuras e desventuras sentimentais de Bita muito deverão à história pessoal de quem as escreveu.

Só duas notinhas. A primeira é para referir uma entrevista ao autor, que eu li na net, e onde ele cita Caetano Veloso e o verso da sua famosa canção: “os livros são objetos transcendentes”; esta canção, como outras de Caetano, é um dos meus mantras, e até tenho um blog cujo nome roubei a esta expressão. A outra nota é para dizer que o prazer de ler este livro está igualmente carregadinho da ternura enorme que tenho por quem mo ofereceu.

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Já tinha lido um livro de João Magueijo, uma biografia científica sobre o físico italiano Ettore Majorana, de que tinha gostado bastante; infelizmente nunca consegui encontar o primeiro livro do autor, Faster Than The Speed of Light, pois também gostava de o ler.

Este Bifes Mal Passados é de um género completamente diferente: um conjunto de crónicas, escritas com recurso ao humor, sobre os usos e os costumes dos ingleses, em particular no que toca às suas opções de ócio e diversão, beneficiando do facto do autor viver em Inglaterra há vinte anos.

Confesso que o livro me irritou um bocado, e só no final é que me reconciliei. Basicamente o que faz é gozar com os ingleses e insultá-los, mas o que me irritou é que achei o tom muito artificioso. Dá a ideia de que o autor de facto gosta muito daquilo, mas quis escrever um livro engraçadinho com base em meia dúzia de episódios, ou nem tanto, que põem em evidência dois aspectos em que os ingleses são, para dizer o mínimo, idiossincráticos: a sua relação com o álcool, e a sua relação com o sexo.

Não ajuda o tom de humor escolhido pelo autor, com muito calão à mistura. Na minha opinião há duas circunstancias em que a utilização de palavrões resulta em literatura: quando é cirurgicamente utilizada para obter um determinado efeito, ou quando é utilizada para dar naturalidade a determinado personagem ou mesmo estilo de narração. Fora disso, como é o caso deste livro, soa a falso. Dá a impressão de que andou alguém a fazer revisão do texto à procura de oportunidades para lá largar umas caralhadas.

E a prova de que o que é natural é que fica bem, é que o livro torna-se sempre mais divertido, e mais genuíno, quando, por exemplo, Magueijo recorre à linguagem científica, ao seu recorte rigoroso e descritivo, para se referir a situações que não têm nada a ver, como a ingestão excessiva de álcool ou os danos corporais provocados por ela.