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24 de julho
rosas
innersmile
Ontem os meus pais fizeram sessenta anos de casados. Casaram naquele que era o dia da sua cidade, em 1954. Há dez anos fizemos uma festa grande, com família e amigos, para comemorar as bodas de ouro. Ontem, quando telefonei à minha mãe logo de manhã e lhe dei os parabéns, ela pediu-me para não falar mais no assunto, para ser um dia como outro qualquer.

Eu compreendo-a, mas fiquei dividido. Por um lado percebo que não haja grandes razões para comemorar, ou melhor para fazer uma festa, com o meu pai alheio ao que se passa e, literalmente, a torturá-la, ainda que amorosamente, a cada minuto do dia, todos os dias. Ela disse-me, um dia destes, que respira de alívio quando ele se levanta para ir à casa de banho; e que começa a sentir mais do que incómodo, mas medo, com a fixação dele nela. É martirizante, compreendo.

Mas por outro lado não deixo de sentir remorsos por de alguma forma deixar a data passar em branco. É uma data importante para eles, para mim, refere-se a um facto que marcou as nossas vidas todas. E sinto remorsos também porque ando tão preocupado comigo próprio, em segurar-me, que não tive energias para contrariar o desanimo da minha mãe. Felizmente a minha prima passou lá por casa à tarde, levou-lhes prendinhas, animou-a. E depois, já quando eu lá estava, a minha querida C, do Brasil, também telefonou, o que nos levantou o espírito, a ambos (a esta hora, o meu pai já estava na sua rotina noturna, que é ir vestir o pijama, deitar-se e vir de cinco em cinco minutos à sala, chamar a minha mãe para ela também se ir deitar). A propósito, nem o meu irmão nem os meus sobrinhos ligaram, claro, esqueceram-se, é natural, mas não deixa de ser um bocadinho descoroçoante.