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O Último Comboio Para A Zona Verde é mais uma extraordinária aventura de Paul Theroux, desta vez na África do Sul, Namíbia e Angola. A ideia era retomar o périplo africano no ponto onde tinha terminado o Dark Star Safari, escrito dez anos antes, mas a desolação da realidade actual africana, marcada pela corrupção e pela miséria, e a melancolia pessoal do A, fizeram-no interromper a viagem e, diz ele, despedir-se definitivamente de África, o continente onde viveu e que revisita, pessoal e literariamente, desde a década de 60.

O livro resulta sombrio e pessimista. Por um lado, a realidade dos países africanos sub-saarianos, nomeadamente os da África Ocidental, e das suas gigantescas metrópoles feitas de bairros de latas e de populações jovens de desempregados servis e violentos, provoca ao autor uma das análises mais implacáveis e negras que conheço sobre o continente. Esta visão desolada sobrepõe-se ao habitual tom distante do autor, sempre marcado por um pouco de cinismo mas bem humorado.

Uma das frases mais conhecidas de Theroux diz qualquer coisa do género: viajo para poder andar de comboio, mas acabo por encontrar passageiros; e diz bem da capacidade do autor de criar verdadeiras personagens literárias a partir dos seus encontros casuais. Apesar da rarefacção da paisagem humana que vai encontrando ao longo desta viagem, resultante da miséria extrema e de muitos anos de guerras e violência, ainda assim Theroux traz-nos alguns dos seus formidáveis retratos de pessoas que vai conhecendo. No entanto, três dessas pessoas conhecem mortes trágicas muito próximas ao seu encontro, e esse facto ajuda a criar a disposição quase depressiva que leva Theroux a por fim à viagem depois do périplo angolano.

De facto, este livro é igualmente marcado por uma extrema melancolia, tão inabitual nos outros travelogues do autor. Resultante da idade, por um lado (Theroux tinha 70 anos na altura da viagem), decisiva tendo em conta o carácter solitário das suas viagens, e delas decorrerem por terra, e, neste caso, em teritórios onde por vezes a dificuldade da viagem terrestre raia a impossibilidade. Muitas vezes o autor se pergunta ‘what am I doing here?’ e finalmente responde pondo termo à viagem e regressando a casa.

Mas há outra perspectiva possível de leitura do livro: a de que Theroux não percebeu o que viu, ou mesmo que a sua vontade de não ver era tão grande que acabou por não conseguir ver nada. É inegável a sua má vontade, e por vezes até algum mau gosto, como quando teoriza acerca da conveniência em se ser um proctologista para se poder atravessar alguns dos lugares por onde passou. O final não ajuda muito a desfazer a ideia de que este livro foi escrito por um tipo que está a envelhecer e a ficar reaccionário, com a cabeça cheia de miragens neo-coloniais.

Provavelmente o livro é as duas coisas: o relato de alguém que não soube ver África, mas também o de alguém que olhou e apenas conseguiu ver a miséria e a corrupção que assola a maior parte dos regimes ditatoriais e violentos em que se tornaram muitos dos países africanos. Mas seja como for, é ainda assim uma obra notável de um dos maiores escritores de viagens contemporâneos.