July 14th, 2014

rosas

it might as well be spring

Faleceu há poucos dias o contrabaixista Charlie Haden. Eu sei que é um lugar comum, mas poucas vezes é tão verdadeiro: Haden era uma lenda viva do jazz, com uma carreira que se alongou por mais de cinco décadas, durante as quais tocou com todos os nomes importantes do jazz, mas mais do que isso, que mudou a maneira de tocar um instrumento, valorizando-o de ponto de vista musical, e dando-lhe o protagonismo que hoje inegavelmente tem.

Era oriundo de uma família de músicos, ligados à country, herança que Haden homenageou num dos seus últimos discos, Rambling Boy, e era pai de quatro filhos músicos, entre eles o Josh Haden, que teve uma banda que eu cheguei a ver ao vivo décadas atrás na Aula Magna, em Lisboa, os Spain.

Gravou um disco com Carlos Paredes, Dialogues, em 1990, e para a pequena história fica também o episódio da sua prisão no Portugal antes do 25 de abril, pela Pide, depois de num concerto com uma das suas mais consagradas parcerias, Ornette Coleman, Haden ter dedicado o seu tema Song For Che aos movimentos de libertação das ex-colónias (sim, crianças, era assim que as coisas se passavam há pouco mais de 40 anos no nosso lindo país: mandavas umas boquitas inconvenientes num concerto e ías preso!)

Entretanto, saiu há poucas semanas um disco de dueto com Haden e o pianista Keith Jarrett. Antigos companheiros no American Quartet, Jarrett e Haden estiveram trinta anos sem tocar juntos, reunindo-se em 2007 para gravar no estúdio caseiro de Jarrett. Dessas gravações resultou um disco editado em 2010, Jasmine, e agora este Last Dance.

É um disco lindíssimo, com standards como ‘Round Midnight ou Everytime We Say Goodbye, onde o piano lírico de Jarrett se casa com o baixo espiritual de Haden. Tenho ouvido o disco em repeat nestes últimos dias (juntamente com o anterior Jasmine) ao qual cheguei por causa do Keith Jarrett, mas que me tem permitido redescobrir o contrabaixo de Charlie Haden. Em homenagem ao músico, mas porque é sempre tempo de celebrar a melhor música que há, aí fica um clip áudio do YouTube com a maravilhosa versão de um tema que eu adoro, It Might As Well Be Spring, um tema de Rogers & Hammerstein que, lá está, veio de um musical.