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ana moura
rosas
innersmile
Fui no sábado à noite ao Cine-Teatro de Estarreja para assistir a um concerto da Ana Moura. Há muito que tinha vontade de ouvir a fadista a cantar ao vivo; um concerto ao ar livre, o ano passado, no Choupalinho, só serviu para abrir o apetite.

E este concerto confirmou o melhor daquela primeira impressão: é impressionante ouvir a Ana Moura a cantar ao vivo, pelo timbre e pela segurança, pelo domínio e até pela ousadia. Os músicos são muito bons, com destaque para o ngelo Freire que é um guitarrista prodigioso. Apesar de terem ficado de fora muitas das canções de Desfados, o concerto serviu também para comprovar como este disco é tão bom, e como são tão boas e entusiasmantes as suas propostas musicais. Em compensação, foi muito bom ouvir a Ana Moura a cantar dois temas de que gosto muito, o Fado Loucura, popularizado pela grande Lucília do Carmo, e Búzios, de Jorge Fernando, e que é de um dos discos anteriores da cantora.

Infelizmente, confirmou igualmente algumas das coisas de que tinha gostado menos: um alinhamento comprometido, com cedências feitas a pensar num público de gostos mais fáceis, a apelar às palminhas a compasso e aos sing-alongs. O concerto que vi do Camané poucas semanas atrás diz-nos o contrário: que um músico pode propor um espectáculo de grande rigor, sem cedências ou facilidades, e que o público adere com tanto ou maior entusiasmo.

A propósito do Camané na Figueira da Foz, logo no início do concerto arrependi-me muito de não ter levado a minha mãe. No sábado corrigi o erro e levei-a a Estarreja, com um programa que incluiu também jantar. Para mais fomos com uma amiga nossa, o que contribuiu para criar um clima de boa disposição. Já tinha saudades de levar a minha mãe a um concerto, sobretudo de fado; não apenas porque me dá prazer proporcionar-lhe essa alegria, que ela aproveita e manifesta, mas também porque me dá gozo a mim partilhar com ela a experiência. Pelos seus conhecimentos de fado, pela atenção com que ‘absorve’ tudo, e também pela conversa e troca de ideias no final do concerto. Acho que nunca vou encontrar outra pessoa com quem goste tanto de ouvir fados como com a minha mãe.
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toque-se o hino
rosas
innersmile
A notícia seria boa demais se não fosse verdadeira: hoje mesmo começa a ser julgado num tribunal de Faro um jovem que, no âmbito de uma cadeira de um curso de artes visuais de uma universidade algarvia, criou uma instalação pública, todavia erigida em propriedade privada, representando uma bandeira portuguesa pendurada numa forca. O trabalho valeu-lhe a nota de 17 na cadeira, e um processo por ultraje ao símbolo da República que é a bandeira nacional, crime previsto e punido com pena de prisão até 2 anos nos termos do artigo 332º do Código Penal (dos jornais, não fui confirmar).

Isto, note-se, no país onde há milhares de bandeiras nacionais penduradas nas janelas e nos postes, algumas já rasgadas e esfarrapadas (na minha rua, há um resto de bandeira que subsiste desde o Euro 2004, há 10 anos portanto), onde as lojas chinesas vendem bandeiras com pagodes no lugar dos castelos, e onde, há menos de um ano, o presidente da República hasteou a bandeira nacional de pernas para o ar, na cerimónia oficial das comemorações do 5 de Outubro, que decorreu na varanda dos Paços do Concelho no município de Lisboa (e sem qualquer perturbação vagal, assinale-se). E isto para não ir mais longe e lembrar os tempos em que se rasgavam e ateava fogo a bandeiras por razões de combate político.

É que nem sequer está em causa o gosto ou a valia artística da obra em causa. Parece-me suficientemente evidente a proposta de uma leitura política, para mais numa altura em que os próprios governantes assumem que Portugal está com a corda na garganta. Poderá ser provocatória, mas essa é uma das funções essenciais da obra de arte, como se pode ler, a um nível diferente, é certo, mas não de todo descoincidente, por exemplo, nas obras que uma Joana Vasconcelos expôs no palácio da Ajuda, que é uma das sedes do governo português.

O que se retira desta história ridiculamente triste, é que em Portugal podem ofender-se os símbolos da República por razões desportivas ou políticas. Mas já no que toca à arte, esta quer-se domesticada e alinhada, sem levantar ondas. Só me vêm à ideia os versos de Alexandre O’Neill: “Ó Portugal, se fosses só três sílabas / de plástico, que era mais barato!”
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