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only lovers left alive
rosas
innersmile
Livros e guitarras eléctricas. Não há como não amar um filme sobre livros e guitarras eléctricas, os dois únicos objectos que o homem inventou que conseguem resgatar do spleen existencial seres tão suicidamente românticos como os vampiros. É isto o filme mais recente de Jim Jarmusch, Only Lovers Left Alive, o único capaz de passar uma esponja por milhares de páginas ou de horas de visionamento de livros e filmes sobre vampiros adolescentes.

Eu ia dizer que é uma cruel ironia que Jarmusch tenha tido enormes dificuldades em financiar o seu filme, ao ponto de ter estado anos sem filmar, mas provavelmente não, trata-se apenas de mais um sinal de que temos de nos conformar com o facto de que o mundo em que vivemos é mesmo o dos vampiros adolescentes.

Tudo no filme de Jarmusch é bom, ou melhor: excelente: a banda sonora, que é fulminante, os actores, os decors, que são sumptuosos. Mas o melhor é a camara do realizador, cujo olhar é sempre tranquilo e inquieto, e o argumento, que é uma jóia de humor e inteligência.

O filme tem tantas referências e piscadelas de olho, tantas ressonâncias no e do mundo, que tinha de ser visto e revisto, muito devagarinho, para podermos apreciar todas elas. As referências e citações acumulam-se por vezes no mesmo personagem: o dealer de Eve, desempenhado por John Hurt, actor de quem nunca se chegam a matar as saudades de o ver mais assiduamente nos ecrãs, é Cristopher Marlowe, o dramaturgo isabelino que, clama ele no filme, escreveu todas as peças de Shakespeare; mas para não ser reconhecido usa o nome de Kit que, coincidência ou não, era o nome da personagem feminina de The Sheltering Sky, o romance de Paul Bowles, e que era inspirada na sua mulher, Jane. A Kit de Bowles vivia em Tânger, como a Eve e Marlowe.

Isto, claro, sem referir que o casal de vampiros se chamam Eva e Adão! E quando Adam vai ao hospital comprar na candonga as suas doses de sangue humano, usa um cartão identificativo em nome do Dr. Fausto. E o tipo que lhas vende é o Dr. Watson. E a companhia aérea em que Eve voa de Tânger para Detroit (of all the places, Detroit que é um case study da morte das grandes cidades industriais norte-americanas) chama-se Air Lumiére. E os exemplos poderia prosseguir porque o filme é todo assim.
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