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a lebre
rosas
innersmile
unnamed

"Não tinha uma única ideia na cabeça. A cada passo que dava crescia o vazio por dentro e o vazio por fora, adensava-se o silêncio. Deve ter sido por isso que apanhei um susto de morte quando uma lebre que tinha estado escondida nos tufos de erva à beira do caminho saltou mesmo à frente dos meus pés e partiu à desfilada, primeiro pelo caminho a direito, depois guinou para um lado, para o outro, e voltou a entrar no campo. Devia ter estado encolhida no seu canto enquanto me aproximei, o coração a bater furiosamente até ser quase demasiado tarde para salvar a vida. O instante ínfimo em que a paralisia que a tinha tomado se transformou em movimento pânico de fuga foi também o momento em que o medo dela penetrou em mim."

- W.G. Sebald, OS ANÉIS DE SATURNO (Quetzal)


Era esta a entrada que eu tinha preparada para pôr aqui ontem. Um insert de uma foto muito antiga, tinha eu sete anos, quase a fazer oito, que fiz a partir de uma foto que a minha queria Madalena me mandou. Foi das raras fotos de infância em relação às quais não sinto embaraço por me ver. Como se me reconhecesse nesse rosto de miúdo, sobretudo no sorriso, que me parece que é o sorriso que ainda tenho. Normalmente olho para as minhas fotografias de infância como se se tratasse de outra pessoa, e uma de que o meu eu actual não se sente muito orgulhoso. Não é que me sinta envergonhado, mas fico um pouco embaraçado, como se aquele da foto já não tivesse muito a ver comigo e eu hoje não quisesse sentir-me responsável por aquilo que ele foi. À foto, tinha pensado juntar este magnífico trecho do Sebald, porque traduz na perfeição o que tem sido o meu estado de espírito nas últimas semanas, e que culminou no dia de ontem.

Tudo porque hoje fui fazer nova cistoscopia. Fez a semana passada dois anos que fui operado ao carcinoma da bexiga, e esta foi a quinta cistoscopia de controlo que fiz. Já devia estar habituado à angústia e ao medo, mas há coisas a que um tipo não se habitua.

Há um mês tive novamente hematúrias e muito provavelmente por isso, estava cheio de medo deste exame. Um medo em crescendo à medida que se aproximava o dia, e que eu escondi quase totalmente, ao ponto de uma das minhas mais íntimas amigas ter comentado, há poucos dias, que eu desta vez estava muito descontraído. Por vezes fingirmos que não temos medo é uma forma de lidar com ele.

Hoje tudo foi difícil. Estive mais de três horas à espera que me chamassem para o exame, a tentar controlar a ansiedade, e exasperado por estar numa sala de espera ínfima e desconfortável, abafada e atulhada de gente. Depois, não conhecia o médico que me fez o exame e nosso rapport, chamemos-lhe assim, não foi o mais harmonioso, porque eu estava desconfiado, é certo, mas também porque ele foi muito descuidado. Há coisas que não se dizem e comentam para o lado quando se tem um doente à frente, para mais numa situação muito exposta e desprotegida.

No fim, o médico disse que quanto à neoplasia tudo estava “aparentemente bem”. Aparentemente? É pouco. Mas disse ainda que havia outros problemas, que ele mencionou, que podiam explicar os sangramentos, e em relação aos quais, se houvesse algum agravamento, eu devia procurar o meu médico assistente. Além disso o exame foi muito desconfortável e doloroso, e no fim eu estava desejoso de me vir embora, mas ainda tive de ir para uma fila, durante meia hora, para marcar o novo exame de controlo.

À tarde não fui trabalhar, fiquei em casa dos meus pais a beber litradas de água e de mimo. E a tentar descontrair, mas o facto é que ainda me sinto triste e angustiado. O ponto é que tenho muito receio de recidivas, que nos cancros da bexiga não são raras, e não sei se neste momento, naquele hospital e serviço, estou a receber a atenção de que precisava para poder estar mais descansado e não me preocupar muito. Vou ter de pensar bem e decidir se vou fazer alguma coisa acerca do assunto.

Mas neste momento a única coisa que quero é afastar-me depressa do dia de hoje. De preferência em direção ao fim de semana que, se tudo correr como planeado, vai ser longo, com sol, com praia e com a minha baby.