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desânimo
rosas
innersmile
O ambiente político nacional está miserável, e já nem um ato eleitoral anima as hostes. As eleições europeias de ontem foram uma tristeza: a abstenção elevadíssima, os resultados desanimadores.

A abstenção elevada é preocupante porque, por um lado, indicia desinteresse pela causa pública e pelos interesses colectivos, e, por outro, uma descrença significativa nos partidos e nos políticos. Mas não deixa de ser chocante que, tendo todos os protagonistas da noite eleitoral lastimado o facto, nem um, pelo menos que eu tenha dado por ela, se atreveu a reflectir de maneira auto-critica sobre o assunto.

Votei no PS porque gosto do Francisco Assis. Respeito-o desde o episódio já longínquo em que ele, enquanto responsável partidário no Porto, retirou a confiança política à então autarca de Felgueiras, que estava indiciada em crimes de corrupção, e, quando se dirigia à estrutura local do PS, foi insultado e agredido. Além disso, considero-o um tipo intelectualmente preparado, de formação académica sólida e estruturada, e gosto de políticos que sejam inteligentes e cultos. Esta preparação intelectual é essencial para que um político seja, na sua essência, uma pessoa livre; só uma pessoa intelectual e mentalmente livre é capaz de fazer compromissos sem se comprometer. E eu considero, tanto quanto é possível conhecê-lo através da sua intervenção pública e política, Assis um cidadão livre.

Infelizmente a liderança do PS é demasiado anémica para nem conseguir ao menos cavalgar o enorme descontentamento e a indignação populares com o governo e o primeiro-ministro. Gostei que António José Seguro se tivesse comprometido a repôr o rendimento perdido pelos pensionistas, que foi, na minha opinião, o crime mais despudorado e imoral que o actual primeiro- ministro cometeu. Mas Seguro é um indivíduo tão pouco carismático e tão desprovido de qualidades de liderança, que ninguém liga ao que ele diz, e, quando liga, não acredita. É muito mais galvanizante um levantar de sobrolho de Sócrates, do que todo o discurso de Seguro, e o PS, com esta liderança, dificilmente convencerá o eleitorado a confiar nas suas propostas.

Também achei muito desanimadora a vitória, entre aspas, de Marinho e Pinto. Primeiro, porque a sua candidatura por um partido, no caso o Movimento Partido da Terra, é falaciosa, uma vez que não se conhecia militância de Marinho nesse partido, ou mesmo em qualquer outro. Marinho não apresentou propostas políticas, uma ideia, uma convicção, nada. A sua campanha baseou-se na capitalização, com tiques de populismo, do descontentamento popular com a política e os políticos, e explorou a sua intensa presença mediática, feita de grosseria e vozearia. Além do mais, trata-se de um populismo conservador, radicado nos preconceitos mais básicos e até soezes, em aparente, e oportunística, contradição com o seu passado esquerdista. A crise profunda em que os países europeus estão enterrados, económica, mas sobretudo política e filosófica, é propícia ao aparecimento destes fenómenos tipo ‘Beppe Grillo’, e é triste ver que em Portugal não escapamos à moda.

Mas se em Portugal o ato eleitoral foi desanimador, pior pior é o bafo que nos chega da Europa, em especial de França: é impensável que um partido como a Front National seja o partido mais votado na pátria do iluminismo e da esquerda política tal como a vivemos ainda hoje na Europa. Apesar de Martine Le Pen ter de alguma maneira suavizado a imagem e o discurso do partido, é a besta-fera do fascismo e do racismo que se esconde, ou nem isso, atrás destes partidos da direita radical. Não são propriamente os figurões e os seus discursos que me preocupam e amedontram; é antes a lição que a história nos dá, e que estes resultados eleitorais parecem sufragar, de que, em tempos difíceis, é fácil acreditar em propostas falsamente redentoras que se alimentam de ódios e desconfianças em relação a grupos e minorias. E que uma vez deixada à solta, o saldo do esforço necessário para controlar de novo a besta, contabiliza-se sempre em retrocesso civilizacional e, sobretudo, num incontável número de vidas perdidas.
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