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pergunta ao joão
rosas
innersmile
A demência senil que tem afligido o meu pai nos últimos seis anos, e que se agrava de dia para dia, afectou-lhe sobretudo a memória. Se a capacidade de raciocínio se mantém num nível funcional razoável, a memória parece um post-it sem cola, não fixa nada; além disso, o passado tem sido progressivamente apagado, como antigamente, na escola, se limpava o quadro com o apagador, metodicamente, começando de um lado e avançando determinadamente pela totalidade da sua superfície.

Conviver de perto com alguém desprovido de memória, para além do sentimento de compaixão que me desperta, também me provoca angústia. Eu valorizo muito a minha memória, que é muito rica e cheia. Não falo tanto da memória como a capacidade de decorar tudo e mais alguma coisa, mas como uma espécie de biblioteca da vida, onde as lembranças e recordações se vão acumulando. Uma biblioteca um pouco anárquica, com um fundo de catálogo razoável, mas um ficheiro deplorável, e um bibliotecário desorganizado mas que adora perder tempo a passear pelas estantes desarrumadas.

Um dia destes veio-me à lembrança, assim sem mais nem menos, uma canção que nos meus tempos de infância era obrigatória em todos os bailes, sobretudo nos de carnaval. Um velhinho samba de Clementina de Jesus, chamado Pergunta Ao João, que eu não ouvia há muitos anos, há décadas, sei lá: de facto não me lembro de ouvir este tema desde que era criança. E sempre que penso nele vêm-me à mente imagens das festas no clube ferroviário de Nampula, não chegam a ser recordações, são flashes de memórias.

Fui ouvir a música no YouTube: vale a pena ouvir a voz forte e clara a encher a melodia, com doses iguais de graça e energia. E lembrei-me, quase inevitavelmente, do Saint-Clair, que amava entusiasticamente a Clementina de Jesus. Encontrei umas entradas do Opiário sobre ela, e mesmo referências que o Saint fez em comentários aqui no innersmile. Aos poucos, habituei-me ao sentimento da falta que o Saint me faz, aprendi a conviver com a sua ausência. Mas não me habituo à irreparável solidão que a sua morte trouxe. A solidão da palavra.