May 19th, 2014

rosas

sebald e casement

O quinto capítulo de Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald, é praticamente todo dedicado a Joseph Conrad e a Roger Casement. Não é a primeira vez que me cruzo com a figura de Casement; a primeira foi em 2002 e escrevi um texto com uma pequena biografia (neste link: innersmile.livejournal.com/2002/10/03/), mas já não me consigo recordar onde vi a referência ao seu nome. Outra, é claro, foi a propósito do romance O Sonho do Celta, o primeiro livro que Mário Vargas Llosa publicou depois de lhe ter sido atribuído o novel (o texto que escrevi sobre o livro está neste link:innersmile.livejournal.com/2010/12/15/).

Do ponto de vista dos factos, o texto de Sebald não me trouxe novidade nenhuma; gostei muito mais da parte inicial do capítulo, dedicada a Conrad. Mas há um aspecto que Sebald refere e que achei muito interessante. Diz ele que, muito provavelmente, foi o facto de ser homossexual que despertou Casement para o drama das populações indígenas, quer no Congo quer no Peru, que trabalhavam em condições infra-humanas de escravatura, para as grandes companhias coloniais, belgas no caso do Congo, inglesas no caso do Peru.

A ironia, é claro, é que os chamados Black Diaries de Casement, onde ele tomava nota das suas experiências sexuais, foram usados pelas autoridades inglesas para obviar a possíveis pedidos de clemência após a sua condenação à morte por traição (Vargas Llosa, no seu romance, defende que muito provavelmente estas notas referiam-se mais a desejos projectados no papel do que a efectivos relacionamentos). Mas o que achei fascinante na ideia de Sebald é ele considerar que foram os contactos sexuais, que foi a vivência sexual, que fez despertar em Casement a consciência das atrocidades que se cometiam sobre outros seres humanos em nome dos interesses comerciais e industriais das potências coloniais.

Eu sei que hoje não está na moda falar na dimensão política do sexo, mas esta capacidade radical do sexo, libertadora e revolucionária, tem sempre qualquer coisa de exaltante. Sobretudo no sexo homossexual, cujo carácter secreto, clandestino, imoral ou mesmo criminoso, acentua essa dimensão política, e à qual a hetero-normatividade será menos sensível.