May 4th, 2014

rosas

quanto é doce

Tenho ideia de já aqui ter posto o clip com esta música do José Afonso, que eu ouvia numa cassete velhinha, em gravação caseira, quando estava em Londres com a minha mãe, nos longos meses da primavera e do verão de 1984, e que nos deixava sempre muito aconchegadinhos, mesmo "no meio da luta".

Como hoje é o dia delas, e eu me esqueci de comprar flores, aqui fica a canção, para a minha e para todas as mães da minha vida.

rosas

ora porra!

Estava há bocado, depois do almoço, a ler uma dessas revistas cor de rosa, de mexericos, que alimentam as suas páginas com a vida das celebridades televisivas. Como raramente vejo televisão, e quase sempre en passant, normalmente não conheço as pessoas em causa nem estou a par dos contextos das notícias.

O tema da capa da revista era uma actriz a quem a mãe morreu recentemente. Dizia-se lá pelo meio que dois dias depois da morte da senhora, a actriz tinha estado muito contente num evento para lançar um novo programa de TV de que é protagonista, e que tinha ido a um concerto de uma estrela da música popular brasileira. Mas o objectivo principal do artigo, referido de forma recorrente, parecia ser o de chamar a atenção de que a actriz tem tido o apoio emocional de uma outra senhora que é produtora de televisão, com quem já vive há três anos, ou está junta há três anos, qualquer coisa do género. Sem esquecer de mencionar que a referida actriz já foi casada e tem um filho. Ou seja a ideia, desde a capa ao conteúdo das notícias passando pelas fotos, era insinuar que a actriz em causa tem uma relação lésbica.

Umas páginas adiante as fotos do funeral de um actor de novelas que se suicidou. Era muito jovem, trinta e poucos anos e, a avaliar pelas fotos, muito bonito. Os amigos e colegas, que não são nomeados, dizem que o rapaz tinha tendências depressivas e que estava desempregado há uns anos. E lá no meio do corpo do artigo refere-se que teve um caso com uma figura internacional da área do desporto, que frequentava o Trumps e o Finalmente, e que vivia as suas paixões sempre com a preocupação de que a família não soubesse de nada. Ou seja, fizeram o outing ao rapaz, dizendo que ele era gay, mas sempre desta forma soez e subterrânea, feita de insinuações e subentendidos.

Confesso que fiquei um bocado chocado. Não costumo ler estas revistas e por isso não faço ideia se é habitual ou não este tipo de histórias, mas surpreendeu-me que dois dos principais artigos, um tema de capa e outro com chamada de capa, se alimentassem de, e por seu lado alimentassem, boatos acerca da pretensa homossexualidade dos seus protagonistas. Sei que há bastantes actores ou actrizes e outras 'tv personalities' que assumem a sua orientação sexual, e por isso não percebo que seja necessário fazer este tipo de insinuações, nomeadamente em relação a uma pessoa que morreu, e de forma tão trágica. What's the point? Vender mais? Mas haverá assim tanta gente que corra a comprar uma porcaria de uma revista só porque ela insinua que um gajo qualquer é gay?

Nem vale a pena tecer comentários moralistico-indignados acerca disto. Mas lembrei-me logo daquele poema do Álvaro de Campos e que vem sempre a calhar a propósito destas coisas:


Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.