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noites tropicais
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O subtítulo de Noites Tropicais ajuda a perceber: solos, improvisos e memórias musicais. Trata-se sobretudo disso, de uma memória do que foram quase cinquenta anos de música brasileira, da bossa nova ao rock, da MPB à música de dança, recordadas por quem foi um dos seus protagonistas. Nelson Motta é jornalista, nomeadamente musical, de imprensa e televisão, compositor e letrista, argumentista e autor de projectos, produtor de discos e de espectáculos, orientador de carreiras musicais, dono de discotecas, boates e salas de espectáculo. A sua ligação à musica brasileira é tão intíma que chegou a viver conjugalmente com ela, já que foi companheiro de Elis Regina (“Elis, não Élis”, apresentou-se a cantora), e de Marília Pêra, que além de actriz, também canta e dança. Em finais da década de 80, Nelson Motta foi co-autor e co-apresentador, juntamente com Eugénia Melo e Castro, do programa de televisão Atlântico, de excelentíssima memória, e que promovia parcerias entre músicos portugueses e brasileiros.

Pelo currículo, percebe-se que não há nome, dos maiores aos mais discretos, da música brasileira que não passe pelas páginas deste livro. Sempre contado cronologicamente, desde que, em finais dos anos 50, era o autor ainda adolescente, eclodiu o movimento musical da bossa nova, que revolucionaria para sempre a música popular brasileira, e a elevaria ao ponto de ser, pelo menos é essa a minha opinião, a mais perfeita concretização nos tempos actuais da música popular enquanto forma de expressão artística. E o livro de Nelson Motta ajuda a compreender alguns dos elementos que estiveram na génese ou que contribuiram para esse extremo aprumo.

Para além de contar, vistos por dentro, todos os imensos projectos, aos mais variados níveis e nos mais diversos meios, em que Nelson Motta esteve envolvido, Noites Tropicais são, como se imagina, perto de 400 páginas pródigas em pequenas e grandes histórias, em gossip e em anedotas. E o olhar do autor é sempre benevolente em relação aos protagonistas dessas histórias, mesmo quando elas correram pior. E não tem pudor em assumir as suas fraquezas, quando foi ele o autor das partes gagas que há sempre nas nossas vidas, para mais quando elas são vividas assim a mais de mil.

Há uma descrição de um show de Tim Maia no morro do Pão de Açucar que é deliciosa, a ver se ainda o transcrevo para aqui um dia destes, mas é enorme, vai ser precisa disponibilidade. Por hoje prefiro recordar a história que Nelson Motta conta de quando acompanhou Roberto Carlos, em inícios dos anos 80, na sua turné com o álbum Emoções (e que eu vi ao vivo quando passou pelo estádio do Portimonense, para aí em 82 ou 83). Roberto era capixaba, ou seja do estado de Espírito Santo, e Nelson Motta conta que quando chegaram à terra natal do cantor, Cachoeiro, poucas horas antes do concerto, havia uma fila enorme de gente à espera junto ao hotel onde a comitiva ficaria instalada. Uma mesa foi instalada na entrada do hotel, Roberto puxou do livro de cheques, e esteve horas a ouvir uma por uma as pessoas que queriam falar com ele, e a passar cheques para ajudar a resolver os seus problemas.

jorge palma
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Jorge Palma, ontem, no auditório do Conservatório de Música de Coimbra (esgotado, repete hoje à noite), a solo ou acompanhado por Gabriel Gomes(acordeão) e por Vicente Palma (guitarra e piano). Foi um concertaço. O público estava receptivo e caloroso, e Palma entregou-se com rigor e vontade. Foi bonito.

No alinhamento quase só canções antigas, dos discos dos anos 80. E Maçã de Junho, que é do primeiro disco do Palma que comprei, Qualquer Coisa Pá Música, um disco de 1980, tinha eu 18 anos. É engraçado, mas de repente damos por nós, e há músicos, como o Palma, que estiveram presentes ao longo de (quase) toda a nossa vida. Ainda desse disco, no concerto de ontem, cantou pelo menos mais duas, Na Terra dos Sonhos e Acorda Menina Linda. E os solos pianísticos fazem-me sempre lembrar o meu disco preferido de Palma, o Só, um disco que ainda hoje ouço porque continua a ‘falar’ comigo (e a ideia que me dá é que nos concertos o Palma nunca se afasta muito deste disco).
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