April 30th, 2014

rosas

vgm

Fora de casa durante o fim de semana e com acesso limitado à net, desligo-me do mundo. Mas mesmo assim soube da morte de Vasco Graça Moura.

O seu nome entrou no meu universo de referências durante os anos em que foi director da Imprensa Nacional, e em que deu um forte carácter literário à actividade editorial da INCM. Durante os anos em que Cavaco foi primeiro-ministro, nunca consegui perceber bem o fascínio que VGM sentia pela personagem, ao ponto de se assumir como um dos seus mais acérrimos apoiantes; mas mesmo nesta altura, divertia-me muito o tom tornitruante das suas intervenções, e principalmente o facto de ser óbvio que aquilo o divertia, que o fazia com humor e sentido lúdico.

Da obra literária, o que conheço melhor são as traduções que fez para os sonetos de Shakespeare, que são tão belos lidos no inglês original como no português com que os fixou. E admiro-me sempre com a simplicidade das suas soluções: é preciso ser-se genial para se poder ser assim tão fácil e natural. Essa facilidade, de resto, e por aquilo que ia lendo sobre si na imprensa, era uma das suas características, e VGM era capaz de escrever um soneto, a pedido, durante uma viagem de avião a caminho do parlamento europeu. Conheço mal a sua prosa literária (tenho ideia de ter lido um dos seus romances, mas não me estou a lembrar de qual), e conheço dispersamente a criação poética própria.

O ponto é que Vasco Graça Moura era um dos raros príncipes da cultura nacional. Era um intelectual, daqueles que tornam um país mais rico. Era um homem de causas, mas sempre com elevação e sobretudo com sentido de intervenção cívica e cultural. Ter uma opinião ou defender uma causa deve ser sempre mais do que isso; deve ser contribuir para o debate colectivo, para o nosso engrandecimento enquanto cidadãos pensantes, e para o enriquecimento do nosso património cívico e intelectual. Vai fazer falta.