April 24th, 2014

rosas

christopher and his kind

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Uma das caracteristícas do Christopher Isherwood de que gosto muito, juntamente com a excelência da escrita, é os seus livros serem sempre muito autobiográficos. Mesmo os romances, quase todos se não mesmo todos, inspiram-se e reflectem sobre aspectos muito concretos da sua vida, mesmo quando estão velados pelo manto, sempre diáfano todavia, da metáfora (como em Um Homem Singular ou Encontro À Beira-Rio). E isto torna Isherwood um dos meus escritores preferidos por dois motivos: o primeiro é porque também a mim quase só me apetece escrever sobre a minha vida, sobre coisas que eu vivi; o outro, mais importante, é porque todo o esforço literário de Isherwood é um caminho de auto-descoberta, um exercício de honestidade, de confronto consigo mesmo, quase sempre sem contemplações, de ajuste de contas com a sua história pessoal, mesmo quando usou em menor ou maior dose a ficção para expôr a sua vida.

Há muito tempo que eu tinha muita vontade de ler Christopher and His Kind, o livro que escreveu nos anos 70 para pôr as coisas no seu devido lugar, depois do êxito que foi o filme Cabaret, que se baseava num musical de palco que se baseava num filme que se baseava numa peça de teatro que se baseava nos seus dois romances de Berlim, Mr. Norris Muda de Comboio e Adeus a Berlim. Isherwood sentiu que esse enorme êxito assentava numa falsidade, o facto de ele nunca ter assumido com clareza a sua homossexualidade e, por isso, a peça, o filme, o musical e o filme do musical sempre utilizaram uma certa ambiguidade sexual que o incomodou.

Assim, CaHK inicia-se com a ida do jovem Isherwood para Berlim, assumindo logo nas primeiras páginas a razão dessa deslocação: para Christopher, Berlin meant Boys! E segue-se o relato dos dez anos seguintes da vida do autor, entre 1929 e 1939, dos quais apenas os iniciais são na Alemanha, mas todos eles marcados por essa experiência berlinense: Isherwood namora com um jovem alemão, Heinz, e a ascenção do nazismo e o espectro da guerra levam-no a um périplo europeu (que passa por Portugal, sete ou oito meses em Sintra) numa tentativa de salvar o namorado da incorporação no exército alemão.

CaHK é ainda a história de relações de amizade profundas e intensas, sobretudo com Wystan, o poeta W.H. Auden, que tinha sido seu colega de colégio. É Wystan quem o convence a ir a Berlim pela primeira vez. Com Wystan vai estabelecendo uma parceria literária, que os leva a escrever peças de teatro em co-autoria. É com Wystan que vai à China fazer uma reportagem de guerra. E é ainda Wystan que o convence, no dealbar da segunda grande guerra, a emigrarem para os Estados Unidos, fazendo juntos a viagem para a América. É também a história de outras amizades, nomeadamente com o escritor e poeta Stephen Spender, ou com E.M. Foster, com que estabelece uma relação de quase mestre-discípulo, entre muitos e muitos outros.

Quando o livro começa, pretende ser quase um guia de interpretação dos livros que Isherwood escreveu nesse e sobre esse período, descodificando situações e fazendo a correspondência das personagens desses livros para as pessoas reais que cruzaram a vida do autor. Talvez por isso, tenha adoptado uma voz narrativa muito original: o livro é escrito na primeira pessoa do singular, mas refere-se sempre ao Christopher dos anos trinta na terceira pessoa, quase como se fosse uma personagem, mais uma, do livro. A princípio parece um pouco estranho, pois Isherwood tanto se refere a si com o pronome eu, como com pronome ele, quando fala do jovem Christopher; mas o efeito é tremendo, porque cria duas vozes distintas, a do escritor septuagenário que olha para a sua juventude e é implacável para com o seu jovem ‘eu’ e com os recursos a que este recorria para se dissimular nos livros que ia escrevendo; mas o jovem Christopher nunca deixa de estar presente, é ele de facto o herói deste relato, foi ele que viveu as aventuras e as escreveu em primeiro lugar.

CaHK é para aí o sétimo livro de Isherwood que eu leio, incluindo dois volumes de diários com cerca de mil páginas cada (falta-me o terceiro, um dia destes será). Já tinha um lugar no grupo dos meus escritores favoritos e este livro veio reforçar essa paixão. O ponto é que estou já ansioso pelo próximo livro de Isherwood que hei-de ler.