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regresso a casa
rosas
innersmile
Não me lembro de ter assistido alguma vez ao vivo à representação de uma peça de Harold Pinter, mas mal começou a sessão da tarde de Regresso a Casa, no TNDM a impressão que tive é que não podia ser de outra maneira, que aquele modo de a levar à cena era o único possível. A encenação de Jorge Silva Melo, que também representa, parece-me ser exacta dessa forma, clássica no seu rigor e no modo como prescinde de artifícios. A cenografia, os figurinos, os objectos cénicos, parecem estar ali exactamente com a mesma função do texto: devolver-nos de maneira tão intacta quanto possível, e sem explicações, o que aconteceu, o que ali se passou.

Não se trata propriamente de um texto fácil, pelo contrário, é enigmático e por vezes quase esparso, vivendo tanto dos silêncios como das falas, e muitas destas são tão as-a-matter-of-fact que o plot é sempre mais subentendido do que enunciado. O humor é sarcástico, muitas vezes rasando o cruel. As personagens parecem-nos feras que são atiradas para dentro de uma cela e deixadas entregues ao seu destino predador. A peça desafia a moral, não porque a provoque ou ponha em crise, mas porque parece tão simplesmente, dela prescindir.

Esta história de cinco homens da mesma família, e da mulher de um deles, é-nos contada de forma tão seca que dá lugar a toda a espécie de leituras simbólicas, mesmo as mais contraditórias: pode ser a história da cedência de uma mulher à força animalesca dos homens da sua família (e sobretudo à daquele que a abandona, sem o mínimo olhar de hesitação), mas também pode ser a história de uma mulher dominadora e manipuladora, que estabelece as condições do jogo, e os subjuga até todos virem, literalmente, prostrar-se a seus pés.

Com um texto tão seco, por vezes quase agreste, e uma encenação tão rigorosa, o jogo dos actores é fundamental, e eu até diria que se não fosse o texto ser tão excelente e a encenação tão perfeita, que o trabalho dos actores era o melhor: João Perry e o próprio Jorge Silva Melo, e um conjunto de actores que habitualmente consigo trabalham nos Artistas Unidos: Elmano Sancho, Rúben Gomes, João Pedro Mamede, e Maria João Pinto. Se são todos muito bons, e se Maria João Pinto consegue ser admirável na expressão que dá à personagem femínina, não há como não referir a experiência de puro prazer que é ver o João Perry trabalhar.
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