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agosto
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O livro começa no dia primeiro de agosto de 1954, com o atentado contra o lider oposicionista Carlos Lacerda, que vitima um major da aeronáutica, seu correlegionário, e termina no dia vinte e seis do mesmo mês, dois dias depois do suicídio do presidente Getúlio Vargas (o livro tem 26 capítulos, um por cada dia). Trata-se efectivamente de um romance histórico, que nos traz a asfixiante e violenta sucessão de eventos que levam o presidente a tomar a decisão de sair de cena da forma mais dramática possível, num gesto derradeiro para se salvar a si, ou ao legado que deixaria para a história, e ao Brasil.

Neste tecido histórico e factual (e rigorosamente factual, segundo creio), Rubem Fonseca vai entretecendo a ‘pequena’ história, no caso a do comissário de polícia Alberto Mattos, melómano (de ópera) e sofredor de úlcera no duodeno (que o faz estar sempre a beber leite frio e a mastigar comprimidos de pepsamar), que investiga o assassinato de um empresário jovem e rico, dono de uma empresa que recebeu favores económicos do governo.

Há uma multiplicidade enorme de personagens, umas reais outras ficcionadas, mas uma das características do livro, e que o tornam tão notável, é que, para além de ser claro, nada confuso, todas e cada uma dessas dezenas de personagens parece fazer sentido. O romance não tem pontas soltas, pistas em aberto, tudo faz sentido, e é por isso que falo numa espécie de teia; o livro é como se fosse uma rede, uma malha, em que cada nozinho faz sentido e é necessário para a compreensão do conjunto.

E depois a escrita de Rubem Fonseca é majestática, um portento; é a maneira como ele cruza os coloquialismos com os termos mais eruditos e com aqueles que eram comuns na linguagem dos anos 50 e que hoje caíram em desuso. A sintaxe perfeita, que dá às frases uma desenvoltura quase musical. O humor, ácido e irónico. O modo como as duas narrativas são tratadas, como se fossem uma única. O ambiente negro, corrupto, sempre à beira do colapso. A carga da violência, de marca urbana, a desgastar lenta e corrosivamente.

O livro é muito bom, mas muito bom mesmo, e tem passagens geniais. O final é soberbo, uma coisa em grande, operática, um épico em que os destinos individuais e as multidões se cruzam de forma vertiginosa, e que nos conduz a um desenlace triste, violento e desalentado, anónimo e abandonado, para tudo terminar na placidez tranquila de um dia de primavera.
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