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Hav, a única obra de ficção de Jan Morris, reune dois livros escritos com vinte anos de intervalo, sobre o mesmo lugar imaginário, a cidade-estado de Hav, localizada na costa mediterrânica da Ásia Menor, entre a Turquia e a Síria: Últimas Cartas do Hav, de 1985, e Hav dos Mirmidões, de 2005.

Um dos aspectos interessantes de Últimas Cartas do Hav, é Jan Morris nunca tratar a cidade como se fosse inventada. Ao invés de nos dar pormenores para contextualizar, Morris parte do princípio de que há informação que é do conhecimento comum (a começar pela sua localização exacta), e por isso não tem a preocupação de no-la transmitir. O livro é um travelogue, um livro de viagens, e não um guia turistico, por isso não há necessidade de nos dizer como é que se pede um copo de água ou o horário de expediente dos bancos.

Só li anteriormente dois livros de Morris, sendo um deles uma memória, Cunundrum, sobre a sua transexualidade, e o famoso Veneza, um dos mais conceituados livros sobre a cidade italiana. Ora, Últimas Cartas do Hav é, nesse aspecto, muito parecido com Veneza, na densidade, nas impressões, no tom, nos pormenores; o que o torna numa obra ainda mais notável e fascinante.

O livro carrega uma imensidade de simbolismos e informações codificadas, mas mesmo sem estarmos apetrechados a descodificá-lo por inteiro, trata-se de um livro sedutor e divertido, que nos remete tanto para o universo da grande literatura de viagens, como para o universo dos escritores do mistério, como Borges.

Hav dos Mirmidões, por outro lado, aproxima-se mais da literatura fantástica, ao encenar aquilo que é essencialmente uma distopia, moldada à imagem do mundo pós-11 de setembro, aliando o fundamentalismo ideológico de raiz religiosa à assepsia tecnológica, e servida por uma linguagem oficial ingénua e intolerante à dissidência.

Apesar da actualidade, esta distopia de Jan Morris não tem a grandiosidade de obras clássicas da literatura como 1984, nem, apesar da aridez do regime, a violência opressiva dessas outras obras. E em parte isso tem a ver com a pessoa da própria escritora, que é, em ambos os livros, e na sua qualidade de escritora de viagens, a personagem principal dos relatos. O humor luminoso e irónico de Morris, o seu olhar amistoso e quase evanescente (que todavia nunca deixa de ser profundo e cirúrgico), impedem de facto que o leitor sinta o peso da opressão distópica.

A Jan Morris é considerada uma das melhores escritoras inglesas da actualidade, mas assim do top 20, num país com muitas dezenas de bons escritores. Este Hav, cuja edição portuguesa, da Tinta da China, tem uma capa belíssima, entrou, pelo menos, no meu top pessoal dos livros favoritos de sempre.

poemas homoeróticos escolhidos
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innersmile
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O AMOR DOS HOMENS MAIS VELHOS

Eles são sempre tocantes em
sua tristeza, ternura e ansiedade,
todos os tristes homens idosos
que um dia foram tristes rapazes.

Como não se emocionar
com seu isolamento e desolação,
seus ténues sonhos e esperança
de um amor, um novo amor, uma amizade?

Os mais pobres e feios ainda anseiam
por um calor humano passageiro, um toque,
um aperto de mão, a sensação, o deleite
da nudez de um outro, de sua força e graça
enriquecendo toda aquela pobreza, vazio e morte.

Amizade é apenas para os jovens
mas também deveria ser para os velhos.
Os velhos precisam mais de amigos
que os jovens, que os têm em excesso.

Quando eu era mais jovem e de boa aparência
sempre me oferecia aos homens idosos.
Eu também saía com outros rapazes, às vezes,
mas pelos velhos sentia um amor especial.
Eu costumava me sentir como um radioso anjo louro
que descia ao mundo para libertá-los da
escuridão de suas moradas insalubres,
da cansativa procura nos parques, nas saunas,
da espera paciente, costas doridas, tornozelos inchados,
de pé no fundo escuro das salas de cinema.

Fátua juventude! E no entanto do fundo do coração,
eu apenas queria que eles fossem amados
tanto quanto eu o era. E mais importante:
eu vinha ao encontro deles e eles
nunca me rejeitavam, como os jovens às vezes faziam
com sua frivolidade, capricho e mesquinharia.

Os velhos são sempre sérios. Eles têm que ser.
Era por isso, em parte, que eu os amava.

Minha mocidade passou, eu ainda amo os homens idosos,
mas não existem mais à minha volta, como outrora,
anjos radiosos como o que eu fui em meus dias dourados.


- James Kirkup; tradução de Paulo Azevedo Chaves


O mais recente lançamento da Index ebooks é uma colectâena de poesia homoerótica, da autoria de Paulo Azevedo Chaves e Raimundo de Moraes, e que inclui, além, de poemas dos autores, uma curta selecta de poemas traduzidos, e, em jeito de homenagem, dois poemas de António Botto e de Cassiano Nunes. Entre os poemas traduzidos, contam-se autores como Cavafy, Garcia Lorca ou Walt Whitman. Como sempre o livro é gratuíto, e pode ser adquirido através do seguinte link: www.indexebooks.com/poemas-homoeroticos-escolhidos.html

Gostei muito do volume, dos textos dos dois autores, e sobretudo das traduções, nomeadamente de alguns poemas que já conhecia. E gostei principalmente de um poema chamado, no original, The Love of Older Men, da autoria do inglês James Kirkup. Não conhecia o poema nem sequer, tanto quanto me recordo, tinha ouvido falar no seu autor. Fui pesquisar, e aprendi que Kirkup, que faleceu em 2009, com 91 anos, além de poeta era tradutor e escritor de livros de viagens, e foi o protagonista do último processo por blasfémia que teve lugar no Reino Unido, em 1976, por publicar um poema que contava uma história de amor entre um centurião romano e o Cristo, e que é 'consumado' quando o Cristo, já morto, é descido da cruz e fica à sua guarda. Intitula-se The Love That Dares To Speak It’s Name, é de facto um poema fortíssimo, e não admira que tenha sido tão polémico. É muito fácil de encontrar na net, por isso prefiro pôr aqui o texto original em inglês do poema The Love Of Older Men; apesar da óptima tradução, é sempre mais belo um poema lido na língua em que foi escrito.

THE LOVE OF OLDER MEN

They are so moving in
their sadness, gentleness and longing -
all the sad old men who once
were all the sad young men.

How can you not be moved
by their loneliness and desolation -
their faint dreams and hopes
of love, a new love, a friendship?

The poorest and the ugliest still long
for just a passing warmth, a touch,
the clasp of hands, the feel, the joy
of another’s nakedness and strength and grace
enriching all that poverty and emptiness and death.

Friendship is only for the young.
But it should be for the old also.
The old have more need of friends
than the young, who have too many.

When I was young and better-looking
I always offered myself to old men.
I had young men too, sometimes, but
with the old I felt a special love.
I used to feel like a radiant blond angel
coming down to deliver them from
the darkness of their stinking cottages,
the weary wanderings of the parks, the baths,
patient waiting with aching backs and swollen ankles
in the dark at the back of the movies.

Fatuous youth! And yet my foolishness
came from the heart: I wanted them to be loved
as much as I was. And even more important -
I came to them, and they
never denied me, as the young so often did
in their caprice and frivolity and meanness.

The old are always serious. They have to be.
It was for that I loved them.

Now I am older, I still love older men,
but there are no young angels
like the one I was in my golden days.