?

Log in

No account? Create an account

adolfo suarez
rosas
innersmile
Quem tem idade e memória não pode ficar indiferente à morte de Adolfo Suarez, ontem, em Espanha. Deve-se ao antigo primeiro-ministro, juntamente com o rei Juan Carlos e com Santiago Carrillo, líder do PC e da oposição, o protagonismo da transição política, social e económica, da Espanha franquista para o regime democrático. Uma transição feita verdadeiramente a ferro e fogo, contra a poderosa resistência dos franquistas e a radicalização política, que em Espanha significou verdadeira e efectiva violência política: da ETA, da extrema-direita, da Grapo, de todos os lados.

E em 1981, quando se demitiu do governo, Suarez protagonizou ainda outro momento histórico, marcando a sua saída com a coragem e a frieza com que tinha sido governante. No dia 23 de fevereiro de 1981, a sessão do parlamento espanhol que deveria escolher o sucessor de Suarez na presidência do governo, o seu ex-ministro Calvo Sotello, foi interrompida por uma tentativa de golpe de estado, protagonizada por um grupo de guardas civis. Tejero Molina, o chefe dos guardas, faz um disparo para o ar e manda todos deitarem-se no chão. Do lado do governo, apenas Adolfo Suarez e o seu ministro da defesa, um militar mais graduado que o tenente-coronal da Guardia Civil, permanecem sentados. Do lado da oposição, Santiago Carrillo permanece tranquilamente sentado, se não estou em erro fumando um cigarro. A tentativa de golpe fracassaria na madrugada seguinte quando o rei se distancia e, na qualidade de comandante supremo das forças armadas, vem à televisão garantir que respeitará a constituição.

Este momento ajudou a tornar inesquecível a figura de Suarez, tal como a de Carrillo e a do próprio rei. Não sou saudosista nem é o tipo de discurso de que gosto, mas são de facto personagens de um tempo que já passou, em que os homens de estado tinham a capacidade, a sabedoria e sobretudo a coragem de se elevarem acima de si próprios, e de responderem com grandeza e sentido de futuro nos momentos decisivos em que a história lhes fazia apelo.